Combater o bullying nas escolas sem ser uma ferramenta de vigilância, mas sim de acolhimento e prevenção. Esta é a missão de uma nova plataforma que chega ao mercado em Portugal. Criada pelas brasileiras Beatriz Freire e Victória Comerlato, profissionais da área de cibersegurança, a Fortsy reúne dois aplicativos móveis, um para uso dos estudantes e outro dedicado aos professores, e facilita a atuação da escola diante do problema."Portugal teve oito mil casos reportados de bullying nas escolas em 2025. Então, imagina os casos que não foram reportados pelas crianças terem medo de represália, de abrirem a situação para os pais. Aqui, hoje, o bullying, ainda mais contra alunos imigrantes, existe um alarme muito grande em relação a isso. Vimos um espaço onde nós, que trabalhamos com a proteção de dados de informação, poderíamos entrar para ajudar realmente quem mais precisa", explica ao DN Brasil Beatriz Freire.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!Através do aplicativo, os alunos podem, por exemplo, reportar incidentes contra si ou contra algum colega, marcar atendimento no setor de psicologia e preencher um diário de emoções, para monitorar como se sente no ambiente escolar. "E o psicólogo, do outro lado, consegue ver ali na plataforma o que é que está acontecendo, se aquele aluno colocou 'muito triste' por uma semana inteira, ou seja, consegue ter esse tracking, para chegar e intervir, perguntar 'como é que nós podemos te ajudar?'. A Fortsy nasceu pra dar voz a esses alunos e não repreendê-los, como a maioria das plataformas digitais hoje, para crianças, faz", completa a fundadora..Para os professores, o aplicativo tem a mesma interface, com botão para comunicar um incidente, outro que faz marcações com a direção ou psicólogos da escola."Os docentes podem registrar o clima emocional todos os dias, que aparecerá em forma de dados estruturados e agregados para a gestão. Assim evita-se represália e retaliação por parte da gestão contra o docente baseado no mood escolhido. Uma vez que o docente entra pela primeira vez na app, ele recebe um popup que pede que indique o grau de satisfação na escola em termos de respeito por parte da gestão, acolhimento, motivação e como se sente no trabalho. Isso também vira dado para a gestão, e esse popup volta a cada 3 meses para uma análise continua", destaca Beatriz Freire.Toda a construção dos apps, desde as formas de se receber as denúncias, até o acolhimento das vítimas, foi estruturada junto com uma equipe de psicólogas. Nos dois há a possibilidade de registros anônimos.As duas fundadoras atuam em grandes empresas multinacionais a partir de Portugal e resolveram colocar a tecnologia ao serviço da Educação depois do contato com o contexto e a realidade escolar aqui. "Nos chocou muito ver o bullying acompanhado da xenofobia. Aquele caso do menino José chocou muito", diz Victória Comerlato. José, de nove anos, teve as pontas dos dedos decepadas ao ter a mão prensada na porta de um banheiro na escola. O caso gerou muito repercussão e mobilizou, inclusive, o lançamento de um concurso, pelo Consulado-geral do Brasil em Lisboa, de combate à xenofobia nas escolas.A Fortsy iniciou as operações pelo Brasil, onde cerca de 30 escolas já utilizam a tecnologia, principalmente nos estados da região Nordeste e no Rio Grande do Sul. "Especialmente pelo lançamento do projeto piloto da Fortsy Docentes. O timing com a crise atual que diz respeito à violência contra os professores no Brasil acabou por dar muita visibilidade", relata Beatriz Freire.Em Portugal, a dupla avança com os contatos com as escolas. A plataforma e os aplicativos já têm versões no português europeu e as criadoras ressaltam que os dados recolhidos podem se tornar essenciais para uma ampla visão do que acontece dentro das instituições e enfrentamento ao bullying.Na parte de análise de dados dos psicólogos, é possível ver "quantos incidentes ainda estão em aberto, incidentes por dados demográficos, gênero, isso tudo de forma agregada, sem expor os alunos. E depois tem o dashboard web da escola, com acesso a todos esses dados demográficos", explica Victória Comerlato."A escola pode tirar daí, por exemplo, que os casos estão acontecendo contra meninas, ou contra alunos estrangeiros, ou que esses casos, na verdade, estão mais voltados para a agressão física. Consegue fazer um PDF, e inclusive, compartilhar com os pais, ou seja, é uma forma de auditoria, de rastreabilidade e transparência com os pais", completa a brasileira..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Insegurança jurídica e xenofobia: por que brasileiros deixaram Portugal por Espanha.Realizada no Brasil, Olimpíada Ibero-americana de Biologia está com inscrições abertas