Com uma carreira que já leva 12 anos, Liniker, hoje aos 30, vive o seu auge e, neste momento, é uma das artistas brasileiras mais em alta no mundo da música. No ano passado, o álbum Caju rendeu à cantora sete indicações no Latin Grammy 2025, três delas nas categorias principais, incluindo Álbum do Ano, Canção do Ano e Gravação do Ano, tornando-a a única artista brasileira na história a figurar nas três categorias principais da premiação no mesmo ano. Muito celebrada naquela cerimônia, Liniker foi também a única brasileira a se apresentar no palco principal, cantando Negona dos Olhos Terríveis - momento destacado pela imprensa internacional, que passou a ter mais olhos para a cantora paulista. Agora, depois de uma série de shows cancelados em outubro do ano passado, ela volta a Portugal para encerrar o ciclo com duas datas em junho - a primeira delas num palco que ela mesma descreve como um marco: o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 5. No dia seguinte, 6, atua no North Festival, na Maia, no Porto."Vai ser a minha primeira vez me apresentando no Coliseu, que eu sei que é uma das maiores casas de Portugal", conta a cantora, em entrevista ao DN Brasil. "Tantos outros artistas do Brasil que têm aí anos e mais anos de carreira já fizeram - vai ser uma honra pra mim também poder passar". As duas datas integram a Caju - The Final Act - Euro Tour 2026, turnê pelo Velho Continente que se inicia no dia 19 de maio e passa por Dublin, Londres, Berlim, Bruxelas, Barcelona, Madri, Paris e Amsterdã antes de chegar a Portugal (e depois ainda tem datas em Hamburgo, Roskilde e Montreux).De acordo com a cantora, o álbum não foi feito para ser um fenômeno, mas sim, nas palavras da própria Liniker, pela intuição do coração - e foi exatamente isso que o transformou num. Gravado em fita, na contramão do formato curto que domina as playlists e dita o que pode ou não virar viral, o disco chegou ao mundo com 14 faixas e a disposição de não se encaixar em nenhuma métrica óbvia. "Eu sinto que o Caju tem uma força muito grande desde a feitura do disco, desde o começo. Toda a energia que eu botei no álbum, no estúdio, no meu processo de composição e gravação, ele é muito honesto. E acho que essa honestidade atrelada com qualidade fez com que chegasse no coração das pessoas de um jeito muito humano e transparente", diz.O resultado, ela mesma reconhece, tem a ver com uma decisão de resistir ao óbvio, inclusive ao que já havia funcionado antes. "Eu não quis fazer um disco para ser igual a nenhum outro disco. Eu quis fazer um disco para mim, um disco para o meu processo artístico, um disco que falasse em qual momento eu estava na época em que eu escrevi, um disco que reverberasse os meus anos de carreira até aqui. Eu tive que ter coragem. Acho que a coragem é o ponto primordial de diferença dele", sublinha. Trajetória, a herança de Djavan e a relação com músicos portuguesesNascida em Araraquara, no interior paulista, e criada num ambiente de samba, samba-rock e soul transmitido pela família, Liniker foi um dos primeiros casos de viralização orgânica da música brasileira na internet: em 2015, o clipe de "Zero", gravado com a sua banda Liniker e os Caramelows numa casa alugada com os trocados que todos tinham, chegou a cinco milhões de visualizações em uma semana. A trajetória foi se alargando, da música para o audiovisual, com a série "Manhãs de Setembro", na Amazon Prime Video, em que protagonizou Cassandra, uma mulher trans dividida entre a maternidade, o trabalho como motogirl e os seus sonhos artísticos nas noites paulistanas. Paralelamente, lançou seu primeiro álbum na carreira solo, Indigo Borboleta Anil, que contou com a colaboração de Milton Nascimento, antes do boom com Caju. Diversas vezes comparada a Djavan, um dos grandes artistas da Música Popular Brasileira (MPB), Liniker não só assume a referência como a define com precisão e sem rodeios. O músico alagoano - que atua também em Portugal em setembro - não é apenas uma influência artística. É uma herança familiar, uma educação musical recebida em casa, transmitida pelos tios e pela mãe desde que ela era criança e ainda não conseguia decifrar as metáforas dele, mas já sentia o peso de cada uma."O Djavan é a minha herança familiar. Eu tenho ele muito como uma pessoa que me educou musicalmente. E eu acho que a educação musical constrói caráter", explica. "Sendo um escritor romântico que me inspira também enquanto compositora romântica, ele tem uma sagacidade de falar do que é comum com clareza e com elegância. O Djavan, para mim, é a minha seta musical, a minha seta de arranjo. É o meu ídolo, é quem me moldou, é quem me molda, é quem me inspira". Já sobre autores portugueses, a cantora diz acompanhar a música daqui com atenção genuína. Cita Carminho como referência imediata, especialmente pela ponte que a fadista construiu com músicos brasileiros ao longo da carreira e menciona o Conan Osíris com afeto: "Eu tenho muito carinho pelo Conan Osíris, que é um cantor português que tem uma relevância muito grande por aí e que acabou sendo uma pessoa que eu tive a oportunidade de conhecer e nos demos muito bem", afirma Liniker, que valoriza o contato que adquire a cada digressão fora do seu país. "O bom das turnês fora do Brasil é que a gente sempre se conecta com o novo e principalmente com outras gerações de músicos. E, neste caso, Portugal é um celeiro de boa qualidade musical", comenta. O contato com a diásporaPara a comunidade brasileira em Portugal, um show da Liniker carrega um peso que extrapola o do entretenimento. A cantora - negra, trans, vinda do interior paulista - é para muitos uma voz que partiu do mesmo lugar, que conhece a mesma distância, e que canta em português brasileiro. Ao falar da relação com o público deslocado deste lado do oceano, é solidária. "Portugal é sempre um lugar muito especial de show, não só pelo público português, mas também por esse encontro com os brasileiros e uma forma da gente levar e acalentar o coração de quem está tão longe de casa há tanto tempo. Cantando português brasileiro, sendo uma brasileira que tenho aí vencido o mundo pelo meu trabalho", reflete. Questionada sobre o avanço do discurso anti-imigração e racista na Europa, não desvia. "A cultura tem uma responsabilidade muito grande de propagar não só a fé, mas também a diferença. Eu fico feliz por ser uma artista que tem propagado a diferença dentro do meu trabalho de uma forma tão honesta e conseguido trazer humanidade para quem me ouve e força também para quem está em outros países sofrendo, mas ainda assim existindo e resistindo", frisa a cantora. Depois das duas noites em Portugal, Liniker segue para a Alemanhã e outros dois festivais na Suíça e Dinamarca antes de voltar ao Brasil para a turnê Bye Bye Caju, que passa por vários estádios e marca o encerramento definitivo desta era. O próximo capítulo já tem até nome e primeiro single - "Charme", lançado no início do ano e apresentado num Tiny Desk Brasil que rapidamente correu o mundo. Mas por enquanto, é hora de aproveitar os momentos derradeiros com o álbum que fez o nome da artista brasileira rodar o mundo. nuno.tibirica@dn.pt.Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 11 de maio de 2026..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Djavan volta a Portugal em 2026 com turnê que celebra 50 anos de carreira."Tô chegando, Portugal". Marina Sena é a mais nova confirmada para próxima edição do Coala Festival em Cascais