Organização de fact check brasileira confirma liderança da extrema-direita em fake news eleitorais em Portugal

Estudo analisou redes sociais durante campanha para as eleições presidenciais. Casos graves de desinformação foram divulgados, maioritariamente, por André Ventura, líder do Chega.

O relatório "Desinformação nas Presidenciais 2026: atividade dos candidatos nas redes sociais", desenvolvido pelo LabCom da Universidade da Beira Interior, em Portugal, em parceria com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), e que teve a participação da organização brasileira AletheiaFact no processo de checagem dos casos analisados, concluiu que a extrema-direita portuguesa foi responsável pela maioria dos conteúdos desinformativos identificados durante a campanha para as eleições presidenciais do país, com estratégias muito parecidas com o que já acontece no Brasil.

O estudo monitorou mais de oito mil publicações nos perfis oficiais dos candidatos e selecionou 26 casos graves de desinformação, que foram analisados pela AletheiaFact. "Esses casos tiveram mais de 12 milhões de visualizações, mais de nove milhões de perfis impactados, é quase toda a população de Portugal. É bastante gente consumindo esse conteúdo que não é confiável", destaca Tamires Volcean, jornalista e cofundadora da organização, ao DN Brasil.

"Tivemos grande destaque para André Ventura", pontua Tamires Volcean, destacando que 88,5% dos casos graves tiveram origem em conteúdos divulgados diretamente por André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega.

Tamires Volcean, jornalista e cofundadora da AletheiaFact.
Tamires Volcean, jornalista e cofundadora da AletheiaFact.Direitos reservados

Segundo Lara Campeão, assistente de comunucação na AletheiaFact, a maior parte dos casos graves de desinformação foram ataques á imprensa. "Seja falando que a imprensa nao é confiável, ou que jornalistas são envolvidos em esquemas de política, ou falsificando a identidiade do veiculo tradicional, fazendo peças desinformativas que se passavam por imprensa", diz ao DN Brasil.

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Além disso, também foi destacado o impacto que a divulgação de pesquisas eleitorais falsas alcançaram. Esta semana, inclusive, o partido Chega foi multado pela ERC em 30 mil euros pela publicação de uma sondagem atribuída a uma empresa não registrada junto à entidade.

Desordem informacional

Segundo Tamires Volcean, o fenômeno da "desordem informacional" em Portugal tem características semelhantes ao que acontece no Brasil.

"A desordem informacional vai diferenciar aquela desinformação que não tem a intencionalidade, que pode ser compartilhada no grupo da família, alguém querendo, até de boa fé, te mandar uma receita milagrosa para a saúde, coisas do tipo. E a desinformação, categorizada pela [Claire] Wardle dentro da desordem informacional, como aquela que tem a intenção de dano. Essa intenção de dano, ela muda tudo, porque ela se torna estratégica. Quando eu tenho consciência da intenção de dano, de uma manipulação, de uma desinformação, ou do que nós comumente chamamos de fake news, mas que hoje vai muito além da fake news, nós temos a ideia do potencial que isso pode causar no debate público e na formação da opinião", analisa a jornalista.

Também semelhante entre os dois países é o perfil de quem produz essa desinformação. Segundo Tamires, tanto em Portugal, quanto no Brasil, partidos políticos mais recentes são os que mais disseminam desinformação. "Esses partidos que não têm essa história política tão consolidada, eles estão mais sujeitos a isso. Então é um ponto para a gente pensar. Esse multipartidarismo que vai crescendo desordenadamente e a gente perde o controle do nível de informação que a gente recebe, do debate e de tudo que vai acontecendo. Então é um fato também desse relatório e dos estudos realizados no Brasil, só para traçar um paralelo de que, apesar da diferença de proporção, ambos os países estão sujeitos a essas questões de impacto na tomada de decisão pública".

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