Respostas estarão em uma peça especial de áudio.
Respostas estarão em uma peça especial de áudio.Foto: DR

Projeto de brasileiro ouve portugueses sobre o que é reparar

Devolver objetos da época colonial? Parar de usar a frase “descobrimento do Brasil?” O artista Lucas França ouviu diferentes opiniões sobre este tema, na exposição Complexo Brasil.
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O que é reparar a história e os povos que foram colonizados? Revidar quando alguém manda um “volta para a tua terra”? Ou mudar a forma como a colonização é ensinada nas escolas, deixando de usar a expressão “descobrimento do Brasil”? Essa pergunta, que recebeu as mais diversas respostas, foi o ponto de partida do projeto RE.PA.RAR, idealizado pelo brasileiro Lucas França.

Durante vários dias, o imigrante esteve na exposição Complexo Brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian, ouvindo as pessoas que visitaram a mostra. O resultado surpreendeu o artista. “O Reparar foi uma grande surpresa, porque a gente achou que haveria muito mais tensão. Meu objetivo não é culpar ninguém”, conta ao DN Brasil. Mas não houve tensão - pelo contrário. “A primeira pessoa que eu ouvi chorou, por exemplo”, relembra.

Lucas acredita que esse resultado se deve, em parte, ao tipo de público que frequenta a Gulbenkian. “O público da Gulbenkian é muito específico, muito politizado, são pessoas com consciência colonial”, avalia. Para ele, o próprio fato de a fundação acolher a exposição e promover atividades paralelas com imigrantes demonstra interesse no tema. Como afirmou na inauguração ao DN Brasil Miguel Magalhães, diretor do programa Gulbenkian Cultura, um dos objetivos era justamente “contribuir para sarar algumas feridas, para estabelecer conversas e diálogos, perfeitamente conscientes”.

Segundo o artista, “curar” foi uma das palavras que mais ouviu durante a performance. “A gente precisa curar o passado. A palavra reparar vai do notar ao consertar. As pessoas conseguiram fazer esse paralelo entre essas possíveis acepções, mas a maioria reconhece que é preciso rever o passado, olhar para trás e curar, sarar”, destaca. Isso deixou o imigrante “muito otimista”, por ser algo que não esperava - e também por contrastar com o cenário que vivencia nas ruas.

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Lucas cita, por exemplo, o caso de uma senhora que reclamou da presença de artistas brasileiros no Teatro São Luiz. “É um momento de muitas fissuras em relação aos imigrantes. Temos que encontrar caminhos para conversar, e a arte também existe para isso. Eu não estou interessado agora em falar de Shakespeare; quero falar do que está acontecendo agora”, argumenta.

As respostas ouvidas vão compor uma peça de áudio, em parceria com o artista português Hugo Vasconcelos, que também se coloca aberto ao tema. “A minha relação, enquanto português, talvez não seja muito próxima da relação geral. Desde criança, sempre tive uma percepção muito clara dos preconceitos - seja pela pessoa ter mais ou menos pigmentação, ou falar a mesma língua com uma pequena variação. No fim, não deixamos de ser todos humanos”, afirma Hugo.

Outra etapa do projeto é o “reclamar”, um espaço aberto para que as pessoas expressem o que acreditam que precisa mudar. Uma edição foi realizada na Fábrica Braço de Prata, em que as reclamações contra a Agência para Integração, Migrações e Asilo (AIMA) dominaram a conversa, além das dificuldades em ter a trajetória profissional reconhecida no mercado de trabalho português...ou mesmo as casas geladas no inverno e quentes demais no verão. “Muitas destas reclamações são minhas também”, ressalta o idealizador da performance.

Depois, virá a terceira fase, o “curar”. Sobre essa etapa, Lucas ainda não revela muitos detalhes, mas adianta que haverá ações na rua e envolvimento da comunidade. “A arte também serve para provocar o estranhamento que faz as pessoas refletirem”, conclui. E espera que, esse assunto seja realmente curado.

amanda.lima@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 16 de fevereiro.
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