A brasileira Camila Barbosa, professora de inglês há 20 anos, transformou a própria trajetória profissional e pessoal em um projeto com impacto social: um curso de inglês voltado exclusivamente para mulheres imigrantes. Morando no Porto desde 2022, logo que chegou viveu um episódio de xenofobia em um banco que a fez repensar seu propósito de ensinar."Estava tentando abrir conta e um gerente que me atendeu, ao analisar meus documentos, histórico e tudo mais, começou a conversa querendo saber o que eu tinha vindo fazer em Portugal", conta. Ouviu do gerente: "Aqui não tem empregos, veio pra ser desempregada? Com o que você vai trabalhar aqui? Porque os portugueses falam muito bem inglês, não precisamos de aulas", disse.Foi na hora que teve a ideia. "Não preciso trabalhar com vocês, vou me dedicar a ensinar imigrantes". A partir dali, começou a desenvolver o projeto. "Já fazia parte de grupos de mulheres imigrantes no Facebook, comecei a pesquisar o panorama de cursos e aulas por ali. E foi nesses grupos que entendi que sem inglês não existe trabalho qualificado, mas, ao mesmo tempo, os cursos são caros e muito longe da nossa realidade aqui", destaca.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!De acordo com a profissional, o idioma é essencial para quem quer trabalhar no país. "No Brasil, o inglês é bastante importante, mas, como nosso país é enorme, nosso mercado interno também é grande e oferece muitas oportunidades. Portugal é um país pequeno e faz parte de um bloco econômico com diversos idiomas diferentes", ressalta. "O inglês aqui é mais do que importante, é crucial. Falar essa língua é a principal porta de entrada para um trabalho qualificado, para crescimento profissional e novas oportunidades", complementa.No curso que criou, existem vários níveis de ensino, do zero ao intermediário alto (B2). As aulas são online, ao vivo, com uma professora, e tudo fica gravado para que as alunas possam assistir depois. "Para que as alunas que trabalham por turnos ou que não têm folga fixa possam acompanhar o curso mesmo quando precisarem faltar", detalha. São até oito alunas em cada turma, e o material digital é gratuito.A iniciativa também foi pensada com três pilares principais. "Crescemos juntas e aprendemos juntas; aprendemos com nossos erros e não julgamos ninguém — as aulas são um espaço seguro; e empatia sempre", destaca. Segundo a professora, já existem casos de sucesso após o curso. "Uma de nossas alunas tem uma clínica de estética que atende muitos estrangeiros e, antes do Flow, ela não conseguia fazer atendimentos em inglês de jeito nenhum. Não era só a 'trava' relacionada ao nível, mas um bloqueio desde os tempos de escola", recorda. "Hoje em dia, ela consegue realizar atendimentos em inglês e não tem mais medo de se comunicar. Essa é uma de muitas histórias legais desde que comecei com o projeto em 2023", ressalta.O curso criado pela brasileira custa 20,50 euros por mês, com aulas de uma hora, uma vez por semana. Além do conhecimento, a imigrante celebra que o projeto também funciona como uma rede de apoio. "Nas aulas, as alunas se ajudam, se escutam, se apoiam, e isso é transformador. Projetos que promovem a cooperação, o crescimento e o respeito certamente ajudam mulheres a criar redes de apoio".amanda.lima@dn.pt.O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Reconhecimento de diplomas é prioridade, diz embaixador do Brasil em Lisboa.Desinformação sobre nova diretiva da UE engana imigrantes. Saiba o que realmente muda