Karen Campos e Beatriz Holanda são sócias no Oxe Coffe, em Lisboa.
Karen Campos e Beatriz Holanda são sócias no Oxe Coffe, em Lisboa.Foto: Paulo Spranger

Com café de especialidade e muita cearensidade, jovens empreendedoras desbravam mundo dos negócios em Lisboa

Abrir conta bancária, cumprir obrigações fiscais, são muitos desafios, mas Karen Campos e Beatriz Holanda reconhecem as vantagens de empreender em uma cidade multicultural. "Dá para fazer diferente".
Publicado a

A sintonia que existe no comando do Oxe Coffe é um elemento que chama a atenção antes mesmo do cheiro do café tomar conta do ambiente. Enquanto Beatriz Holanda prepara as bebidas, Karen Campos deixa os salgados prontos, dando um toque especial às tapiocas. Se uma vai servir, a outra mima os clientes de quatro patas com um biscoitinho. A agilidade por trás do balcão é necessária, já que, no total, a loja tem apenas 19 metros quadrados de área. É pequena no espaço físico, mas grande no desejo que estas jovens empreendedoras têm de se firmar na cena dos cafés de especialidade em Lisboa, sem abrir mão da identidade cearense.

Tudo começou com um gosto pessoal e um relacionamento à distância. Karen deixou Fortaleza e desembarcou em Portugal em 2018. A amizade foi se transformando, mesmo online, e, em 2021, Beatriz chegou de vez. A ideia de, juntas, investirem em um espaço focado em cafés de especialidade já tinha nascido, quando, ainda no Ceará, Beatriz se tornou barista profissional. "Aqui, passei a trabalhar em alguns lugares de café de especialidade. Só que também chegou um período que eu já estava cansada de estar naquele meio e queria sempre melhorar. Depois de muitas conversas, vimos muitas possibilidades de abrir o próprio negócio e fazer algo diferente. Também fomos conhecendo algumas pessoas. E aí a gente começou a comprar os equipamentos, fomos atrás. Nossa casa virou um grande estoque", conta Beatriz ao DN Brasil.

Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!

Foram cerca de três anos pesquisando mais sobre a área, comprando materiais e estocando tudo em casa. Até que, há nove meses, a busca pelo espaço físico se concretizou. Situado em Alcântara, o Oxe Coffee trabalha com cafés selecionados, com origem em Minas Gerais, combinando tudo com um menu simples e afetivo, que enaltece o Ceará. Tem coxinha e pão de queijo, mas o carro chefe são as tapiocas, feitas por Karen, que dribla a falta de uma boa goma nordestina com um pequeno truque para reidratar o ingrediente.

"Eu pego a goma, dissolvo ela todinha na água, fica parecendo um mingauzinho mesmo. Depois eu deixo 24 horas secando, aí ela separa a goma da água e depois eu vou só jogando a água e vou secando com um pano. Depois de ela estar seca, tenho que peneirar ela todinha de novo, todo esse processo. E aí ela não fica tão seca, né? Fica mais úmida, na frigideira ela consegue criar aquela liga da nossa tapioca cearense" explica a jovem ao DN Brasil. "No inverno, o processo é mais difícil, ela demora mais a secar, pela umidade", completa a cearense.

A tapioca e o bolo mole são símbolos da gastronomia cearense, que complementam a experiência com os cafés de especialidade, de origem mineira.
A tapioca e o bolo mole são símbolos da gastronomia cearense, que complementam a experiência com os cafés de especialidade, de origem mineira.Foto: Paulo Spranger

O lado doce da cozinha conta com a mão de Beatriz. "Foi um dom que ela herdou da mãe dela", destaca Karen. Entre os bolos, os tradicionais de chocolate e milho não faltam, mas é uma receita genuinamente cearense que brilha na casa, o bolo mole, que traz mais do que apenas raízes nordestinas ao menu, carrega o envolvimento da família no sonho deste casal.

"A ideia do bolo mole foi de uma tia minha que tinha um restaurante aqui, e aí ela fazia o bolo lá pra vender e sempre ficava falando que a gente tinha que fazer. Ela deu a receita, mas a Beatriz também faz parecido com a receita que a mãe dela tem", diz Karen. "É, eu fiz umas modificações com a receita da tia dela, com a receita da minha mãe, e a gente achou esse ponto de equilíbrio. Não é todo mundo que conhece mesmo, em outros estados tem outros parecidos. Tem bolo Luiz Felipe, bolo de leite, bolo da moça, pega marido, engorda marido, baeta, mas bolo mole acho que só lá em Fortaleza", ressalta Beatriz num tom de bom humor.

Assim como as receitas, a decoração do espaço também traz o sentimento de casa que estas jovens empreendedoras querem passar. Um filtro de água de barro, que foi pintado à mão por uma amiga, cajus pendurados numa parede, bonecos de barro, chapéu de cangaceiro, tudo trazido nas malas quando a dupla volta das viagens ao Ceará, além do menu, que tem uma xilogravura na capa.

Beatriz Holanda e Karen Campos se planejaram por três anos para abrir um café de especialidade em Lisboa.
Beatriz Holanda e Karen Campos se planejaram por três anos para abrir um café de especialidade em Lisboa.Foto: Paulo Spranger

Empreender sendo imigrante

Cada etapa no Oxe Coffee tem sido um desafio. Desde a preparação para abrir a empresa, que, para quem é imigrante, envolve uma atenção a mais. "A gente tem que estar com tudo regularizado. Isso é uma dica importante. Sendo cidadãs estrangeiras, precisa estar com tudo em dia", explica Beatriz. "A gente até não abriu antes justamente por conta da documentação da Beatriz. Como eu moro aqui há mais tempo, já tinha saído antes. E como a gente sempre quis abrir como sócias, a gente esperou ela receber o título para a gente poder abrir empresa", completa Karen.

Até o espaço ficar pronto, foi preciso uma grande reforma, que durou dois meses e custou cerca de 15 mil euros. Depois, operacionalizar tudo, arcar com o seguro, com as licenças, que são várias. Para funcionar como café, para usar mesas na calçada, até para colocar música dentro do espaço é preciso autorização. "A licença de música é da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores, para música ambiente no estabelecimento, e o valor é de 194,40 euros por ano", explica Beatriz. Ao todo, só para abrir as portas, a dupla estima ter investido cerca de 25 mil euros.

Abrir a conta bancária da empresa foi o processo mais difícil, diz Beatriz. "Muito burocrático, foi mais demorado abrir a conta do que a própria empresa em si", destaca a cearense. "Era importante ter o dinheiro da empresa na conta para poder ajudar nos nossos custos, no IRS. E lembrando, quando se abre empresa você já paga IRS no primeiro ano, não tem aquelas insenções da pessoa física. Então tem as despesas de IRS, de IVA, Segurança Social, tudo valendo desde a hora que abre" reforça a cearense.

Mesmo com muito trabalho, antes e agora, Karen ressalta o lado positivo de estar abrindo um negócio em uma cidade como Lisboa. "Tudo parece ser muito distante, mas eu acho que a questão é você começar a fazer, ir atrás, e aqui tem muitas oportunidades. Dá pra fazer muita coisa diferente, são muitas culturas diferentes e isso ajuda também a gente a aprender uns com os outros. Então, se você tem vontade de crescer de uma forma diferente, aprender, eu acho que também aqui é um ponto de partida muito grande".

O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
Karen Campos e Beatriz Holanda são sócias no Oxe Coffe, em Lisboa.
Cariocas trazem Leão de Cannes para Portugal. "Essa é a beleza do negócio, é um estúdio luso-brasileiro"
Karen Campos e Beatriz Holanda são sócias no Oxe Coffe, em Lisboa.
Com menu "de alma portuguesa", restaurante paulistano Cantaloup abre primeira unidade internacional em Lisboa
Diário de Notícias
www.dn.pt