Luís Felipe Salomão. “A democracia precisa se defender da própria democracia”
Foto: Gerardo Santos

Luís Felipe Salomão. “A democracia precisa se defender da própria democracia”

São mais de 470 oradores em três dias do evento, de várias áreas do conhecimento. Luís Felipe Salomão, que em breve toma posse como presidente do Supremo Tribunal Federal, falou ao DN Brasil sobre a edição deste ano, ampliada com a “Semana Brasil”.
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Nos últimos anos, o centro do poder brasileiro muda-se para Lisboa durante alguns dias. Sempre na primeira semana de junho ou julho, ocorre o Fórum de Lisboa, antes chamado de Fórum Jurídico, mas que foi ampliado para temas que vão além do direito.

A edição de 2026, que começa hoje e vai até quarta-feira, será a maior das 14 já realizadas. Estão confirmados 470 palestrantes de vários países do mundo em cerca de 70 painéis de debate, com o tema principal “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”. Na verdade, o fórum praticamente já começou. Desde a semana passada, dezenas de autoridades brasileiras já estão na capital portuguesa, que sedia uma série de eventos de várias áreas.

Um deles é o ministro Luís Felipe Salomão, vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e que assume a presidência em breve. “É uma experiência muito interessante essa de fazer a Semana do Brasil em Portugal porque nós fazemos também uma preparação para o evento maior que é o Fórum de Lisboa. Ele já ganhou uma dimensão extraordinária, uma dimensão muito grande e esses eventos que vêm na sequência ajudam a criar essa expectativa em relação ao fórum”, disse ao DN Brasil.

Uma das iniciativas foi o curso “Os desafios da democracia no século XXI”, coordenado por Salomão. “É um curso inovador, com professores portugueses e brasileiros, participam juízes, advogados e promotores. Nessa quinta versão nós ampliamos para receber todos os profissionais da área, então tratamos desses temas, a democracia defensiva, como exercitar os limites para que de dentro da democracia não se atente contra ela, quais são essas regras que funcionam”, explica. O desafio, na visão do juiz, é ainda maior com o ambiente digital. “É importante controlar esse debate”, cita.

Na visão do magistrado, a liberdade de expressão não pode ser absoluta. “A democracia precisa se defender da própria democracia. Ou seja, a absoluta liberdade que atenta contra a democracia, ela é perniciosa, ela não pode existir”, argumenta.

De acordo com Salomão, o objetivo é justamente defender este sistema de permite a liberdade.“Nós precisamos ter em mente que a liberdade não é absoluta, ela tem que ter controle para preservar o bem maior que é a própria democracia”, reflete. Este assunto será discutido em algumas das mesas do fórum.

A programação é lançada às vésperas do início, o que mostra a confiança de quem se inscreveu. Há meses centenas de pessoas estão confirmadas, mesmo sem saber todos os nomes que estarão no Fórum de Lisboa. Participa todos os anos, por exemplo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes.

Os primeiros nomes divulgados incluem Iván Duque Márquez, ex Presidente da Colômbia (2018-2022), que conquistou projeção internacional pelo seu trabalho em áreas como a transformação digital, sustentabilidade e o desenvolvimento econômico na América Latina, Joel Mokyr, vencedor do Nobel das Ciências Econômicas e professor da Northwestern University, considerado uma das maiores autoridades mundiais em história econômica, inovação e crescimento, além de Thomas Friedman, colunista do The New York Times e vencedor de três Prémios Pulitzer, amplamente reconhecido pelas análises sobre geopolítica, globalização e inovação tecnológica.

Além dos debates, a edição deste ano terá o lançamento de oito obras dedicadas a temas centrais da agenda jurídica, tecnológica e institucional contemporânea. No plano científico, o encontro contará também com as mesas de investigação. Diante do alto número de trabalhos inscritos, os organizadores tiveram que ter mais salas dedicadas a estes debates.

Autoridades brasileiras

Promovido por instituições brasileiras e a Faculdade de Direto da Universidade de Lisboa, a maioria dos participantes são do Brasil. Do executivo ao judiciário, serão 29 ministros do governo e magistratura, quatro governadores, dois prefeitos de capitais, especialistas e acadêmicos.

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Alguns dos nomes são o ministro do STF Flávio Dino, Luís Roberto Barroso, que se aposentou recentemente do STF, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o senador Rodrigo Pacheco, Hugo Mota, presidente da Câmara dos Deputados, Paulo Gonet, procurador-geral da República e o presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo.

Além do Fórum de Lisboa, a “Semana Brasil”, que começou na passada quarta-feira, continua. A Embaixada do Brasil em Lisboa recebe esta segunda-feira o “Encontro de Escritores - Dois Atlânticos”, com José Roberto de Castro Neves, membro da ABL, e do jornalista José Eduardo Agualusa.

Na terça, a embaixada ainda será o local de “Rotas Visuais - Entre o Brasil e Portugal”, evento que inclui o lançamento dos livros Os caminhos da mulher na arte brasileira, de Marta Fadel, e Hugo França - esculturas mobiliárias, da FGV Arte, em colaboração com o Atelier Hugo França.

Em 2025, o evento movimentou 15 milhões de euros em Lisboa. Neste ano, fonte da promoção afirmou ao DN Brasil que o valor deverá ser ainda maior, por ter mais pessoas inscritas e uma programação ampliada. Já existem relatos de vagas esgotadas em hotéis e na classe executiva de alguns voos que chegam do Brasil.

Aliás, o aeroporto da capital portuguesa é outra preocupação. Nas últimas semanas, as filas chegaram a horas, tanto nas entradas quanto nas saídas, levando o Governo a tomar medidas para mitigar o impacto destas demoras, que ocorre numa altura que a cidade está cheia de visitantes.

O fórum é organizado pelo IDP, pela FGV Justiça e pelo Lisbon Public Law Research Centre (LPL), da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com o apoio do Fórum de Integração Brasil-Europa (FIBE).

amanda.lima@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 01 de junho.
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