Partido de André Ventura tem políticas anti-imigração.
Partido de André Ventura tem políticas anti-imigração.Foto: Paulo Spranger

Livro analisa imigrantes que apoiam partidos anti-imigrantes e outros paradoxos

O cientista político e jornalista brasileiro João Gabriel de Lima acaba de lançar o livro "A Direita à direita da Direita".
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Por que imigrantes apoiam e votam em partidos anti-imigrantes? A literatura acadêmica pode dar respostas, mas uma forma de descobrir é perguntando diretamente a essas pessoas. Foi o que fez o cientista político e jornalista brasileiro João Gabriel de Lima, que acaba de lançar o livro A Direita à direita da Direita. Na obra, este é um dos temas analisados no cenário político de Portugal e do Brasil nos últimos seis anos.

Em entrevista ao DN Brasil, o escritor chama o fenômeno de “muito inusitado” e conta que foi perguntar aos próprios imigrantes anti-imigrantes as razões desse modo de ser e estar. A resposta pode parecer mais simples do que se pensa. “São na verdade brasileiros bolsonaristas que veem o Chega como um correspondente português do Bolsonaro. Por isso, não se incomodam com o fato do Chega ser um partido que é contra eles, num certo sentido, não é um problema”, explica o jornalista, correspondente em Lisboa do jornal Folha de São Paulo.

Um dos entrevistados é o próprio deputado brasileiro Marcus Santos, do Chega. O partido, liderado por André Ventura, é abertamente a favor de políticas contra imigrantes. Recentemente, ingressou com um projeto de lei na Assembleia da República propondo que crianças portuguesas tenham prioridade nas creches em detrimento das que são imigrantes. Esta não é a primeira vez que o partido usa as crianças para difundir o discurso. No ano passado, os deputados divulgaram nas redes sociais e no plenário do Parlamento nomes de crianças estrangeiras, além de terem proposto a suspensão durante oito anos do reagrupamento familiar.

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Ainda assim, têm muitos apoiadores imigrantes, sobretudo brasileiros, como o deputado Marcus Santos. Segundo João Gabriel, o parlamentar se definiu como um imigrante diferente por ter se “integrado”. Outros imigrantes ouvidos pelo jornalista relataram o mesmo.

Outro fator, de acordo com o escritor, é que os partidos “à direita da direita” reconhecem e fortalecem seus pares pelo mundo. “É como se fosse um grande clube internacional. Uma coisa que confere identidade para esses caras, mais do que uma ideologia, é ser parte desse clube”, explica. Neste “clube”, formado por líderes como André Ventura e a família Bolsonaro, os temas são comuns, como o antifeminismo, mas com ajustes em cada país.

O paradoxo não é exclusivo de Portugal e do Brasil. Um dos casos recentes de repercussão internacional foi o de um imigrante britânico, apoiador de Trump e de políticas de deportação em massa, que foi deportado dos Estados Unidos por estar em situação ilegal. Assim como esse caso, há outros de brasileiros que foram deportados em situações consideradas desumanas, algemados, sem água e comida durante o longo voo, mas continuam apoiando Trump.

O livro ainda aborda temas como a tentativa de golpe no Brasil em janeiro de 2023, o saudosismo do período da ditadura por apoiadores de Bolsonaro e de Ventura e as ameaças à democracia nos dois países. Um evento de lançamento de A Direita à direita da Direita será realizado em breve na cidade de Lisboa, em data a ser definida.

amanda.lima@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, dia 14 de setembro de 2026.
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