Eleições de 2026: jovens brasileiros criam “bolhas” nas redes para fugir da polarização

Pesquisadora Catharina Vale analisa olhar dos jovens para a política. Em entrevista, afirma que tendência em Portugal é de uso das redes sociais por conservadores mirando na juventude, como no Brasil.

Jovens brasileiros têm interesse por política, mas, hoje, recorrem a uma espécie de “proteção” nas redes sociais para filtrar conteúdos, o que faz com que este grupo selecione as informações que deseja acessar e fique exposto a uma “forma muito mais individualizada” de olhar para o mundo e as suas relações. Esta é a análise da pesquisadora brasileira Catharina Vale, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, que lança o livro ‘Curadoria do Eu - como as redes sociais, política, cansaço e medo estão mudando as nossas relações’, pela editora Gog Ideias.

O conceito foi desenvolvivo durante o doutorado de Catharina em Portugal, depois de entrevistas feitas com jovens residentes em metrópoles brasileiras, dos 21 aos 34 anos. “Gosto de dizer que a ‘curadoria do eu’ é uma lente, uma forma de tentar compreender melhor como é que esses relacionamentos se constroem dentro das redes sociais. Durante as entrevistas, os jovens falavam ‘eu faço uma curadoria, eu sei o que que eu vou acessar’. Percebi que isso é um mecanismo que utilizam, muitas vezes, para se proteger”, explica a pesquisadora ao DN Brasil.

Esta característica, segundo a brasileira, veio se intensificando nos últimos anos, principalmente pela polarização política. “Como é que as relações ficaram depois das eleições de 2018 e já próximo das eleições de 2022? Então o conceito ajuda a gente a entender como é que a gente parte de um mecanismo para se proteger, começa como uma coisa positiva, mas acaba despertando também algo negativo, que é: eu começo a olhar somente o que eu quero, começo a ver o mundo de uma forma menos plural”, ressalta.

No livro, Catharina Vale reflete sobre a complexidade das relações, destacando que a ‘curadoria do eu’ não deve ser vista como “algo que representa uma ausência”, mas sim como “algo que nos ajuda a entender o contexto”. Segundo a pesquisadora, os jovens demonstram certo cansaço da polarização. “Eu prefiro viver na minha bolha, eu ouvi muito isso nas entrevistas, eu ouvi muito dizer que ‘brigar cansa, eu estou cansado das dinâmicas de grupo social, de rede social, estou cansado de brigar com a minha família’, e é legítimo isso”, avalia.

“Uso estratégico”

Neste cenário, para a pesquisadora, abre-se um espaço para que as redes sociais sejam utilizadas “de forma estratégica” por quem compreende melhor a dinâmica entre os jovens. “O ano de 2018 ensinou muito para a gente, no caso do Brasil, mas basta a gente olhar as eleições anteriores ao redor do mundo. As dos Estados Unidos acabaram sendo, ali, o referencial para o uso das redes sociais de forma estratégica. A Índia, como o próprio Steve Bannon diz, Modi foi o Trump antes do Trump, ou seja, há vários exemplos ao redor do mundo que nos mostram como a extrema-direita conseguiu, vem conseguindo dominar muito mais essas estratégias a seu favor”, pontua.

A pesquisadora acredita que as eleições de outubro deste ano vão ter um caráter “parecido” com o de 2018 quando fala que o espectro político da direita “compreende melhor o mecanismo das redes sociais”, e identifica a tendência também em Portugal. “É importante a gente falar que não é um uso aleatório, é um uso estratégico das redes sociais para fins políticos, ele vem sendo observado de uma forma mais similar, guardando as particularidades de cada país, mas cada vez mais parecido em diversos países e também em Portugal. Então, aprender sobre a história do que está acontecendo no Brasil com o uso estratégico dessas redes sociais ajuda também a lidar com isso de uma forma mais estratégica e mais segura também para Portugal”, finaliza.

O livro será lançado em setembro, nos dias 15 e 17 em Brasília, 26 na livraria Gato Vadio, no Porto, e 29 na Biblioteca Municipal do Barreiro.

caroline.ribeiro@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias de segunda-feira, 24 de agosto de 2026.
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