O peso de ser brasileira em Portugal: 288.788 cidadãs que ainda sofrem com imagem estereotipada

As mulheres que desembarcam em Portugal acabam, em boa parte, colocadas em subempregos, especialmente ligados ao serviço doméstico ou do que os portugueses chamam de "o mercado da alegria".
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Desde 2005, as mulheres brasileiras predominam no ranking dos estrangeiros em Portugal. E nesta corrida migracional, a estrada a ser percorrida pelas brasileiras em solo europeu não é nada simples.

Nas ondas de migração que marcam a chegada dos brasileiros às terras lusitanas, o perfil das brasileiras que escolheram Portugal para viver também se modificou. O que ainda nos anos 90 tinha como objetivo principal a reunificação familiar, com mulheres chegando ao país para acompanhar os familiares, ganhou outras estradas no novo século que despontou, quando as mulheres passaram a cá chegar sozinhas, em busca de suas próprias conquistas.

A pandemia da Covid-19, tão recente na nossa memória, também alterou esse cenário. Ainda que muitas venham cá motivadas pelas ofertas de qualificação nas universidades portuguesas, a grande maioria chega ao país com o único objetivo de encontrar melhores condições financeiras. O que não necessariamente está relacionado a melhores condições de trabalho em relação ao que tinham no Brasil. Tenho muito falado sobre a falsa ilusão do sonho da imigração em Portugal, o que a cada estada minha no país europeu fica ainda mais nítido. Sobretudo, para as mulheres.

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O Brasil tem batido recordes de imigrantes em Portugal ano após ano. Já são mais de 570 mil brasileiros oficialmente no país, segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), a maioria mulheres. São 288.788 cidadãs, que precisam de atenção.

Em 2025, a Segurança Social portuguesa teve 198 mil mulheres brasileiras registradas, dados que mostram que a feminilizaçao é uma característica dos processos de migração, sobretudo na Europa. A questão é que, no Brasil, ainda não se fala abertamente sobre as dificuldades que serão cá enfrentadas, e boa parte das mulheres chegam em Portugal e se deparam com complexidades estruturais que as mergulham em vulnerabilidades sociais, a ampliar a gama das diferentes formas de violência que especialmente as mulheres são submetidas. Ser homem brasileiro em Portugal é muito diferente de ser mulher brasileira aqui.

O peso de ser brasileira em Portugal: 288.788 cidadãs que ainda sofrem com imagem estereotipada
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As mulheres que desembarcam em Portugal acabam, em boa parte, colocadas em subempregos, especialmente ligados ao serviço doméstico ou do que os portugueses chamam de "o mercado da alegria". E esse mercado da alegria pode ser apenas o serviço de atendimento em bares e restaurante ou, em casos mais extremos, ligados a serviços de exploração sexual.

Essa é outra vertente que marca a migração das brasileiras para Portugal. Aqui, a imagem estereotipada da mulher que vem do Brasil dificulta o processo de acolhimento. Somos, em Portugal, ainda sexualizadas pelos portugueses e repelidas pelas portuguesas, que não perdem a oportunidade de dizer que as brasileiras cá estão para roubar seus maridos. A sororidade, tão necessárias entre as mulheres em todas as nacionalidades, ainda encontra em Portugal um longo caminho a percorrer.

E o que tudo isso acarreta: xenofobia e racismo. Em 2024, houve uma alta de 20% nos casos de xenofobia contra brasileiros, segundo a AIMA, a Agência para Migração e Asilo, sendo que 58% das vítimas eram mulheres brasileiras. No que diz respeito ao racismo, o aumento de 35% nos casos registrados está concentrado entre as brasileiras.

As brasileiras se fecham em nichos em Portugal. Geralmente estão entre amigas brasileiras, as quais compreendem melhor a dinâmica das diferentes formas de violências psicológicas colocadas. Eu sei que eu tenho sorte. Muitos anos entre idas e vindas entre Portugal e Brasil, impulsionada pela minha profissão, permitiu-me hoje ter um círculo de convivência que mescla brasileiras e portuguesas, portugueses e brasileiros, quase que de forma equilibrada. Ainda assim, não evitou nem evita de que eu ouça a piada travestida de indireta de que estou cá em busca de marido português. Aos que me falam isso, trago-lhes uma ampla e complexa explicação sobre a nossa importância na manutenção da engrenagem social e econômica portuguesa. Que possamos todos aprender com as diferenças, e respeitar aqueles que escolhem migrar. Portugal e Brasil sempre vão ser meus lugares favoritos neste mundo. É entre cá e lá que me sinto em casa.

O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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