Arrisco dizer que este é um comentário que muitas brasileiras e brasileiros já ouviram em Portugal: "Porque reclamar do calor? Vocês são do Brasil, isso não é nada". Um meme que circula pela internet resume bem a resposta: somos do Brasil, não do inferno. Como o DN Brasil é um jornal e não um perfil na internet, vamos aprofundar o tema: temos sofrido muito com o calor em Portugal.Não é novidade que o país sofre de pobreza energética. Segundo a Eurostat, Portugal ocupa o quinto lugar na União Europeia (UE) nesse indicador. No inverno, muitas casas são geladas; no verão, viram estufas. No frio, podemos (e assim fazemos) vestir mais blusas e recorrer aos cobertores. Mas e no calor? Tenho a impressão de que ainda não existe um consenso de que o calor também mata.Antes de continuar, um aviso: este não é um texto para negacionistas climáticos. Parto de um fato comprovado cientificamente: a Terra está mais quente a cada ano e as ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e intensas. A discussão não é mais se isso está acontecendo, mas como vamos lidar com essa nova realidade. Aqui, vejo uma grande diferença entre boa parte da Europa e o Brasil. Não porque sejamos melhores ou mais conscientes das mudanças climáticas, mas porque o calor faz parte da nossa realidade há muito tempo. Em muitas regiões do Brasil, as construções, os serviços e até os espaços públicos foram pensados para conviver com temperaturas elevadas. O ar-condicionado, por exemplo, não é visto como um luxo ou exagero, mas como parte da infraestrutura necessária para garantir conforto e, principalmente, saúde.Portugal vive uma realidade diferente. Grande parte do parque habitacional e dos edifícios públicos foi projetada para enfrentar o frio. O problema é que o clima mudou mais rápido do que as construções. Hoje vivemos enormes dificuldades durante as ondas de calor.É claro que é preciso dizer uma diferença básica. O Brasil é um território continental, com seis climas oficialmente reconhecidos: do equatorial ao subtropical. Nasci e vivi grande parte da minha vida no interior do Paraná, onde geadas são comuns no inverno e pode até nevar. Minha realidade é bem diferente, por exemplo, da realidade da minha colega Caroline Ribeiro, que nasceu em Fortaleza, no Ceará. Apesar dos quase 3 mil quilômetros de distância que separam as regiões, temos algo em comum: existe uma preocupação em adaptar as cidades às altas temperaturas. O ar-condicionado em edifícios públicos é normal e vem se tornando cada vez mais presente até em regiões tradicionalmente frias, como o Paraná.Em maio deste ano, visitei a escola pública onde estudei. Hoje, todas as salas possuem ar-condicionado. No dia em que estive lá, alguns aparelhos estavam ligados. Naquela manhã o dia começou com mínimas perto de zero grau (saudades). A instalação dos equipamentos não foi pensada apenas para aquele dia, mas para responder aos verões que vêm ficando cada vez mais quentes do que quando lá estudei há mais de 20 anos.Nas casas acontece algo semelhante. Quem tem condições financeiras investe em climatização. E aqui vejo outra diferença em relação a Portugal: dificilmente se discute se ter ar-condicionado em casa é exagero ou desnecessário. A climatização é encarada como uma forma de melhorar a qualidade de vida e proteger a saúde.Escrevi hoje no DN uma reportagem sobre a falta de ar-condicionado em instalações públicas portuguesas, como centros de saúde, escolas e tribunais. Conversando com profissionais e usuários desses serviços, confirmei algo que já vinha percebendo há bastante tempo: as infraestruturas de Portugal ainda não estão preparadas para enfrentar as mudanças climáticas.Talvez isso surpreenda quem vive no Brasil e não conhece essa realidade. Existe a ideia de que "na Europa não faz calor" — ouço isso com frequência quando volto ao Brasil — ou de que, por ser um continente desenvolvido e não do “terceiro mundo”, todos os prédios estão preparados para enfrentar temperaturas extremas. A realidade mostra que não.Nesta reportagem que fiz, um sintoma que me preocupa especialmente: nenhum dos ministérios que procurei (Saúde, Justiça e Educação) respondeu ao jornal como pretende adaptar os edifícios ao aumento das temperaturas. E penso que esta deveria ser uma preocupação, pelo bem de todos.O Brasil também tem muito a avançar. Mas não é por acaso que o Governo brasileiro anunciou nesta semana um investimento de R$ 9,8 bilhões (cerca de € 1,64 mil milhões de euros) com o objetivo de preparar o sistema de saúde para os impactos das mudanças climáticas. O plano prevê uma série de medidas para antecipar riscos climáticos e fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS). Parece uma boa medida e alinhada com a realidade, que ainda há quem insista em negar..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Brasil prepara o SUS para enfrentar calor extremo e eventos climáticos com investimento bilionário.Escolas, tribunais e centros de saúde não estão preparados para ondas de calor.Administradores de hospitais pedem resolução urgente de casos sociais para responder a onda de calor