Tenho acompanhado, com grande preocupação e tristeza, os estragos causados pelas tempestades e enchentes que têm acometido Portugal nas últimas semanas. Me dá um aperto no coração ao ver as fotos e assistir as entrevistas com pessoas desalojadas, que tiveram de abandonar suas casas e todos os bens materiais que conquistaram com o suor do seu trabalho, colheitas que foram perdidas, negócios fechados, animais abatidos, vidas humanas que também foram levadas, falta de água e eletricidade, estradas destruídas e deslizamentos de terras. Diante de todas essas calamidades terríveis, a questão de pessoas ficarem desalojadas é algo que me toca em um lugar muito particular, devido às experiências que já tive com habitação nos últimos nove anos em Portugal: mudei de casa 11 vezes, o que implica buscar uma casa por 11 vezes e ouvir dos senhorios que a casa já estava alugada mesmo não estando. Ouvir perguntas desconfiadas sobre o que eu fazia em Portugal, olhares de julgamento e comentários de que a casa deles era uma “casa de família” (como se eu, por ser brasileira, não fosse). Por 11 vezes, fazer mudanças e ter de colocar todas as coisas que eu fui comprando ao longo de anos em malas e sacolas, ter de deixar muita coisa para trás, carregar tudo de um lado para o outro, às vezes sozinha de metro e de ônibus, às vezes com a ajuda de amigas brasileiras e portuguesas maravilhosas. Eu não tinha a casa da minha família para voltar, nem temporariamente, e minhas amigas estavam em situações parecidas com a minha. Para continuar em Portugal e conseguir terminar os meus estudos, eu tive de me sujeitar a senhorios xenófobos, quartos caríssimos, a dividir casa com mais sete pessoas, a ver a polícia ser chamada por agressões entre senhorios e inquilinos ou entre as próprias pessoas que também moravam nas casas, e, ainda, ouvir o clássico “volta para tua terra”. Se essas experiências me doem até hoje, fico imaginando como também deve ser bastante doloroso para uma pessoa ver a água invadindo sua casa (talvez o único espaço em que se sinta segura) e estragando suas coisas, ou, assistir a sua casa literalmente desmoronando, e não poder fazer nada. Como conseguir continuar trabalhando, estudando, se alimentando, cuidando dos filhos, tendo sanidade mental, estando desalojada(o)? É uma situação terrível para todos, mas fico pensando, principalmente, nas mulheres, nos imigrantes e nas pessoas já idosas, devido às vulnerabilidades adicionais que esses grupos têm de enfrentar em situações de catástrofes como essa.Diante de todo esse cenário trágico, me indignou profundamente saber que, às vésperas das eleições presidenciais, políticos portugueses “nacionalistas” se utilizaram da miséria do próprio povo para tentar conseguir votos, falsificando a chuva nos vídeos em que aparecem ajudando a população atingida. As mentiras espalhadas por esses “nacionalistas” não são propriamente uma novidade, já que eles vivem inventando histórias e teorias paranoicas acerca dos imigrantes como uma estratégia política, “dividir para conquistar”, mas, desta vez foram mais longe e manipularam a tragédia vivida pelos próprios portugueses para continuar enganando o povo. É a velha lógica utilizada durante toda a campanha de que, quando se inventa ou se aumenta um problema, o “salvador” da pátria também parece ser maior do que realmente é: um menino pequeno, birrento, sedento por aplausos, atenção e poder. E não é que faltem problemas a Portugal, pelo contrário. As cidadãs e cidadãos do país continuam sofrendo com a dificuldade de pagar as rendas das casas, com os baixos salários, com a falta de direitos trabalhistas, com a falta de médicos e professores, com os incêndios e a inalação de fumaça que já se tornaram sinônimo do verão português, e com as enchentes. As mulheres e crianças continuam sofrendo com os altos índices de violência doméstica cometida por seus companheiros. Os idosos continuam recebendo reformas baixíssimas que não são minimamente suficientes para viver com dignidade. Boa parte da população continua sofrendo racismo e xenofobia, sofrendo com a situação de permanência irregular no país por incompetência da AIMA, sofrendo com a dificuldade de conseguir um contrato de trabalho simplesmente por falta da atribuição de um NISS, com medo de ser parada pela polícia e deportada por causa da irresponsabilidade e irregularidade do próprio Governo. Os poderes de um presidente são limitados, é verdade, mas ele continua sendo um representante do povo e tem o poder de promulgar leis e decretos, decretar estado de sítio, ratificar tratados internacionais, nomear representantes, e de cobrar que os outros governantes trabalhem verdadeiramente a favor do país e de todos que nele vivem. Quando um candidato a presidência mente se utilizando da miséria do próprio povo para enganar e zombar do eleitorado, semeia a divisão da população e dissemina o ódio contra pessoas que constroem o país, e cujo único programa eleitoral é gritar e atacar grupos minorizados e dizer que fará diferente dos outros candidatos, sem propostas reais, não estamos diante de alguém que se importa com o desenvolvimento do país e nem que irá governar para melhorar a vida do povo português, estamos diante de um impostor. Como alguém pode, por exemplo, “combater a corrupção” do governo, se, antes mesmo de chegar ao poder, mais da metade das coisas que diz é mentira? Como alguém pode “limpar” Portugal, se já está tão corrompido que não consegue jogar limpo nem na própria campanha eleitoral? Como confiar na palavra de pessoas assim? Alguém que mente na campanha eleitoral já mostra a que veio: enganar o povo em busca de poder e dos próprios interesses, ao que deveria ter sua candidatura cassada. Por fim, mobilizar a raiva da população com os problemas do país para odiar um outro é, também, um atestado de incompetência, de pequenez e imaturidade, da incapacidade de responsabilizar a si mesmo e aos próprios portugueses pelos problemas reais do país, e que os próprios portugueses não têm conseguido resolver. É mais fácil promover o ódio contra um outro, dividir o povo em “nós” versus “eles”, ignorar a realidade e as estatísticas, porque, caso contrário, implicaria promover o ódio contra os próprios políticos, os senhorios, os empresários, os amigos que violam, espancam e matam mulheres, os chamados portugueses “de bem”. Esses “nacionalistas” não querem construir um Portugal melhor, querem destruir todo o progresso conquistado pelo povo após o 25 de abril. As pessoas que continuam apoiando e votando nessa gente precisam acordar. Não caiam nessa. Foi assim que a gente quase perdeu a soberania e a democracia no Brasil. Quem salva um país não são os Salazares, são as cidadãs e cidadãos que vivem nele. É o povo. São as trabalhadoras e trabalhadores que acordam cedo para abrir a cidade e manter o país funcionando. Ser “nacionalista” não é utilizar o dinheiro dos contribuintes para criar uma nova polícia imigratória ou construir presídios para imigrantes, é utilizá-lo para oferecer o acesso à habitação, educação e saúde de qualidade. É criar medidas concretas para oferecer a todas e todos uma distribuição de renda mais equitativa e o acesso a um trabalho digno. É ter solidariedade com todos que precisam, independentemente da nacionalidade.Na contra-mão aos “nacionalistas” estão os imigrantes, ainda vistos por muitos como os “inimigos” de Portugal. Os imigrantes em Coimbra que através da Casa do Brasil de Coimbra arrecadaram donativos para pessoas afetadas pelas cheias. Os imigrantes que se juntaram, arrecadaram doações e levaram até idosos que vivem nas aldeias mais afetadas. Os imigrantes que criaram pontos de arrecadação em Leiria, na Covilhã e no Fundão para depois distribuir os bens arrecadados pelo país. Os imigrantes que têm reconstruído voluntariamente as casas em Pedrógão. Os imigrantes que ajudaram suas vizinhas portuguesas vítimas das enchentes a retirarem suas coisas de casa, para que não perdessem tudo. Os imigrantes e as pessoas negras e racializadas que trabalham reconstruindo estradas: 99% dos trabalhadores que eu vi nesse ramo nos dois anos em que vivi em Coimbra, agora uma das cidades mais afetadas pelas chuvas e enchentes dos rios. O Timor-Leste irá doar 4,2 milhões de EUROS para a reconstrução de Portugal. São a todos esses que muitos ainda continuam a desprezar e chamar de “inimigos” de Portugal. São a esses que muitos só conseguem enxergar de maneira objetificada, que, quando não mais lhe servem, descartam e gritam para “voltar para tua terra”. São esses a que muitos ainda não enxergam como parte legítima da população, que não podem reclamar do que está mal, que não podem ficar doentes e ter acesso aos serviços públicos que eles mesmos ajudam a sustentar, que são constantemente lembrados de que são estrangeiros que não são bem vindos. Ainda assim, as “personas non gratas” continuam aqui, solidárias com todos, independentemente de serem portugueses ou não, construindo e reconstruindo o país. Isso é ser nacionalista. Isso é amar Portugal, e não querer destruir.Desde pequena, meus pais me ensinaram que “ninguém vive sozinho”, que ninguém é autossuficiente, que precisamos servir a nossa comunidade, e que, um dia, por mais arrogante que alguém seja, também precisará da ajuda dela. Infelizmente, não podemos controlar as catástrofes que acometeram Portugal nas últimas semanas, mas talvez possamos aprender com elas. Talvez possamos aprender a cobrar dos candidatos que decidimos apoiar que eles discutam as pautas e os problemas reais da população, que apresentem propostas que melhorem a vida de todas e todos, e a repudiá-los quando atacam grupos minorizados. Talvez muitos portugueses (e imigrantes anti-imigrantes) possam aprender a valorizar os imigrantes, que constroem esse país, mesmo depois que as enchentes passarem e acharem que somos descartáveis e que não precisam mais de nós. Talvez Portugal possa aprender a integrar os imigrantes na sociedade verdadeiramente, com respeito e dignidade, como nós realmente somos: cidadãs e cidadãos que também amam esse país. Talvez os governantes portugueses possam aprender a urgente necessidade de regularizar e promover a dignidade dos imigrantes que cá vivem. Portugal é um país cheio de potencial, mas, para prosperar, tem um grande desafio pela frente: encarar o seu passado colonial e combater verdadeiramente o racismo e a xenofobia. Para construir um país forte é preciso que a população esteja unida, e isso implica valorizar as diferenças que tanto enriquecem esse país em todos os sentidos. Os imigrantes não são uma ameaça, são parte da solução para que o comércio continue a funcionar, para a arrecadação de impostos, para que se consiga pagar as reformas dos idosos, para a baixa natalidade, para que a população economicamente ativa não decaia, para o intercâmbio e desenvolvimento cultural, para uma maior mobilização da luta social. O governo espanhol entendeu isso, saiu na frente e tem dado o exemplo. É preciso dizer chega aos discursos de ódio e que a população se una para cobrar medidas concretas dos verdadeiros responsáveis. Se querem culpar parte da população pelos problemas do país, antes de culparem os imigrantes, que culpem os governantes portugueses que não conseguem ter peito para aumentar os salários e controlar os preços das rendas das casas, os senhorios que fizeram da especulação imobiliária um meio de vida às custas das trabalhadoras e trabalhadores, a AIMA que é a verdadeira responsável por milhares de imigrantes estarem “ilegais” no país, os empresários que exploram os trabalhadores para encher ainda mais os bolsos de dinheiro e irem de férias para o Algarve no verão, a incompetência do Estado em garantir médicos e professores para a população. Por fim, fica o meu desejo de que as tempestades parem, que as pessoas atingidas fiquem bem e se recuperem, que o Estado Português cumpra o seu papel e apoie todas as pessoas afetadas para que consigam reconstruir suas vidas, e que, como bem disse Bad Bunny no Super Bowl, Deus abençoe Portugal: portugueses, brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, ingleses, indianos, italianos, guineenses, nepaleses, chineses, franceses, são-tomenses....O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.Volta para a tua terra, pá!.O molho brasileiro e, finalmente, a latinidade como desejo de consumo