Volta para a tua terra, pá!

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Há frases que dizem mais sobre quem as profere do que sobre quem as recebe. “Volta para a tua terra” é, talvez, uma das mais reveladoras. O recurso a expressões provocativas, que traduzem uma rejeição simbólica de pertencimento, não é exclusivo de um povo.

Em Portugal, é por vezes dito por portugueses; no Brasil, nós próprios, às vezes, repetimos juízos de valor que não correspondem à realidade histórica ou social. Nenhuma sociedade está imune a estereótipos ou preconceitos. Reconhecer isso é o ponto de partida para uma reflexão honesta e não uma acusação dirigida a um só lado.

Recentemente, a pedido da minha filha, fiz um exame de DNA para descobrir as minhas origens. Tenho sobrenome italiano e um bisavô do norte da Itália. Sempre presumi, por ignorância, que a minha matriz genética fosse majoritariamente italiana, mas, para minha surpresa, descobri que 54% do meu DNA é português, sendo o restante europeu, com uma pequena porcentagem indígena da América Central, de 1%. Ou seja, sou portuguesa com certeza!

Ao comparar com o teste de DNA de minha cunhada, que é portuguesa “de raiz” — filha, neta, bisneta, tetraneta etc. de portugueses —, percebi que ela também apresenta traços espanhóis, ingleses e franceses semelhantes aos meus, além de ser 74% portuguesa. A ciência confirma: a mistura não é exceção, é regra. Portugal sempre foi território de confluência: celtas, romanos, suevos, visigodos, mouros, judeus, cruzados franceses e ingleses, além das trocas comerciais atlânticas. É essa história de encontros e cruzamentos que molda o que significa ser português.

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa tem reiterado que não há portugueses “puros”, apenas portugueses diversos, formados por um longo cruzamento de etnias, culturas e religiões. Em discursos públicos, rejeitou a ideia de pureza racial e de nacionalismos estreitos, lembrando que a identidade portuguesa se construiu no encontro de múltiplas raízes históricas.

Portugal, ao longo da sua existência, enfrentou diversos ciclos migratórios, que confluíram para a formação do povo português tal como hoje o conhecemos. Ao ver um cartaz de campanha presidencial com o slogan “Portugal para os portugueses”, perguntei-me: o que é, afinal, ser português?

Não se trata de apoiar ou criticar políticos, mas de refletir sobre identidade, memória e realidade histórica — e isso sem sequer entrar na dimensão jurídica, em que a Lei da Nacionalidade e a Constituição portuguesa são claras quanto ao tema.

Ofender brasileiros, especificamente, é ofender a própria história portuguesa, aquela que criou o Brasil como extensão cultural, social e genética do país. A base do DNA de grande parte dos brasileiros é portuguesa; com exceções regionais, o Brasil é fruto direto dessa história de cruzamentos.

Muitas vezes, humilhar ou afrontar nasce da necessidade de se sentir superior, de afirmar controle ou poder sobre o outro. São mecanismos que se repetem em contextos de medo, insegurança ou competição social e cultural. Compreender isso não significa legitimá-lo, mas é essencial para que o medo não se transforme em discriminação.

É evidente que existem abusos e diferenças culturais — como há, aliás, entre os próprios portugueses. Quem vive em outro país deve respeitar costumes e regras locais. Em Roma, como os romanos. Educação e civilidade são regras básicas e universais.

Estamos, mais uma vez, a viver um ciclo migratório. A discriminação nasce da desigualdade, do medo da mudança cultural, da desinformação e de discursos populistas que transformam estrangeiros em bodes expiatórios. Nada disso é novo; novo seria esquecer a própria história.

A inclusão e o acolhimento não são apenas valores morais. São fatores fundamentais — e inevitáveis — para o desenvolvimento social, econômico e cultural dos povos. Sempre foram. Talvez, antes de repetir frases feitas, valha a pena perguntar: de que terra estamos falando, afinal?

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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