Primeiro, nos conte um pouco da sua trajetória no Brasil antes de vir para PortugalÉ uma longa trajetória. Eu sou nordestino de Alagoas, engenheiro agrônomo na primeira formação,com mestrado e doutorado na área de Economia e Desenvolvimento, tendo morado quase oito anos fora do Brasil. Então sempre estive ligado ao mundo, conectado em experiências profissionais e pessoais. Estou no Sebrae há 25 anos, como diretor por quase dez. Tenho uma trajetória também na área pública, quanto ministro do Turismo, no Governo da presidenta Dilma e envolvido com inovação há muito tempo, porque eu sou da área universitária, de pesquisa. Vivi praticamente o início do processo de incubação no Brasil, estava junto com a universidade. Acredito que a academia tinha que estar junto e, nesse sentido, fico muito feliz que o Brasil avançou bastante nessa área. E o Sebrae também está ligado a esse tema, em diversas unidades em que eu trabalhei e mais recentemente na área internacional, onde eu estou hoje, o Sebrae retoma a área internacional. O Brasil está nessa dinâmica, liderada pelo presidente Lula e a Apex. A gente tem ampliado mercados, conseguido reposicionar o Brasil depois de um tempo de recuo. Mais recentemente, fui chamado aqui para apoiar esse desafio a partir de Lisboa, desse processo de soft lending e de aceleração de startups. Eu tenho acompanhado os últimos sete Web Summits aqui e achava que faltava um enraizamento maior, uma sustentação dessa presença do [Sebrae aqui].Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!E quais você acha que vão ser os maiores desafios aqui à frente do Sebrae em Portugal?Fundamentalmente entender essas diferenças que existem entre os nossos países e de um contexto também europeu. Portugal está na Europa, está em uma comunidade. Tem desafios que são distintos. Imaginamos que a barreira linguística está vencida porque a gente é um país que fala português, mas além dessa aparente língua que se assemelha, tem diferenças muito grandes no modo de fazer negócio, na forma de lidar com processos, enfim, um certo formalismo. Então tem para nós um desafio de entendimento. Nós já temos relações muito boas com o IAPMEI (Agência para a Competitividade e Inovação de Portugal), com o Startup Portugal, com o Governo português, com a própria presença da Embaixada Brasileira aqui, que tem uma grande comunidade de brasileiros. A gente já vem se aproximando, entendendo, mas agora é um deep dive, é um aprofundamento dessas relações. Já iniciamos esse processo para conhecer melhor esse ambiente regulatório, o ambiente de oportunidades, como se faz negócio aqui, e como a gente faz com que essas startups, de fato, consigam se internacionalizar.Depois a própria forma de trabalhar juntos é um desafio. Aqui nesse condomínio, nessa sede, liderada pela Apex, que está a Embratur também, a Fiocruz, temos uma aprendizagem de convívio e tem um ajuste fino que vai se fazendo. Estamos nos últimos quatro meses, desde o Web Summit, vendo exatamente como esse programa de aceleração, de incubação, podia ser refinado. A gente espera que seja o primeiro de muitos ciclos. Então tem uma aprendizagem também do convívio de duas instituições, que hoje tem na sua liderança, o presidente Décio Lima, o presidente da Apex, Jorge Viana, uma afinidade muito grande, afinidade também a nível de governo. Isso vai se mostrando já nessa primeira semana, mas aqui no Brasil, nesses quatro meses, a gente tem acertado na dose dessa aproximação.Quais são os planos do Sebrae para Portugal?Aqui o Sebrae não tem como mandato atuar no exterior, no sentido de prestar serviços a empreendedores, nem mesmo brasileiros, exceto se ele tem negócios no Brasil, com CNPJ lá, que está tentando se internacionalizar. E deve ter muitos brasileiros que têm esse pé nos dois mundos. Mas a comunidade já tem nos procurado, desde o anúncio desse trabalho conjunto aqui do programa de aceleração. Eu já recebi dezenas de pessoas interessadas pelo LinkedIn, pelo WhatsApp, conseguiram algum contato para dizer, “olha, eu estou aqui, estou empreendendo em tal setor, ou tenho uma cooperativa tal, e gostaria muito de conversar com vocês”, mesmo sabendo que vocês não estão abrindo escritório, não é o Sebrae em Portugal. Evidentemente, na medida em que a gente se torna presente fisicamente, tem um maior convívio, inclusive com essa comunidade, porque é natural que a gente vá se integrando nesse contexto, porque muitos desses brasileiros também estão empreendendo em negócios inovadores, não estão dentro das startups que estão aqui, mas estão em outras. Tem centenas de brasileiros que estão com startup Visa, Tech Visa e tal, a gente vai convivendo. Aqui tem outras iniciativas brasileiras importantes, o Piauí Invest, por exemplo, o Porto Digital. Essa integração no ecossistema vai nos fazer entender de que maneira a gente pode, servir a diáspora brasileira. A gente já atendeu, no passado, a diáspora brasileira nos Estados Unidos e a diáspora brasileira no Japão. E é bom que o país mantenha essa proximidade. É muito bom saber que tem centenas de milhares de brasileiros que podem, inclusive, fazer conexões, essa diáspora pode fazer conexões com os pequenos negócios brasileiros. Tem a minha relação com o embaixador Alessandro Candeias, e também com o embaixador Raimundo Carreiro, nesse sentido de poder entender melhor quais são essas necessidades dessa diáspora que está empreendendo, e que ainda mantém vínculos com o Brasil. De modo que a gente possa, evidentemente, ter uma oferta possível de ser compartilhada. Apesar de não tem essa finalidade de criar um ponto de atendimento como a gente tem no Brasil, a gente tem condições de orientar e de estabelecer relações com o IAPMEI, com quem temos o memorando de entendimento.Temos aqui o colega Victor Mello, que é da área de inovação do Sebrae e já identificou várias das ferramentas que nós temos, que são facilmente transferíveis para o IAPMEI e que podem atender os brasileiros. Tenho certeza que a grande maioria tem desafios na área de transformação digital, de lidar com inteligência artificial no seu dia a dia, nos seus negócios, são coisas que a gente pode fazer por essa proximidade. Tem instrumentos que o Sebrae tem que não vai ser possível, que são o fundo de garantia, por exemplo, que só opera com o sistema financeiro brasileiro. Mas várias das ferramentas, soluções que nós temos, elas podem, através do IAPMEI, serem absorvidas e, quem sabe, fazermos algo voltado para essa comunidade brasileira.amanda.lima@dn.pt.Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desa segunda-feira, 16 de março..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.."O Sebrae vai vir com muita força pra Portugal", anuncia presidente da entidade.Inovação e criatividade: dez startups brasileiras desembarcam em Lisboa para ganhar mercado europeu