Você já se sentiu sozinha, sem ninguém para poder contar? Ou mesmo quando está com um companheiro, ainda assim se sente só? Para muitas mulheres que deixaram o país de origem para recomeçar a vida em Portugal, esse sentimento faz parte da rotina. Longe da família, dos amigos e das referências, enfrentam não apenas a distância geográfica, mas também o desafio de reconstruir uma rede de apoio num país diferente.Foi dessa experiência compartilhada que nasceu, em Lisboa, a campanha "Not Alone. Not Anymore" ("Não Sozinha. Não Mais, em tradução literal"). A iniciativa foi criada para combater a solidão por meio da construção de redes de acolhimento, pertencimento e apoio.O projeto é da Academia Comum, integrante da associação Diásporas, que reuniu mulheres de diferentes nacionalidades para refletir sobre os desafios da migração. Foram escolhidas 15 mulheres para esta etapa. "Cada uma trouxe a sua dor individual. Depois fomos chegando ao consenso de que havia uma dor oculta e que essa dor não era individual. Era a solidão", afirma ao DN Brasil a psicóloga Alessandra Cattani, uma das porta-vozes da campanha.O sentimento de isolamento aparecia em todos os relatos, mesmo em mulheres casadas. Neste caso, uma solidão agravada pela responsabilidade de conduzir todo o processo de adaptação da família ao novo país. "Somos nós mulheres que somos responsáveis pela documentação, pela adaptação e pela socialização", resume a profissional.Alessandra explica que muitas acabam assumindo sozinhas a carga burocrática e emocional da migração. Ao mesmo tempo, tentam construir uma nova vida longe da rede de apoio que tinham no país de origem.Para o grupo, o isolamento vai muito além da saudade de casa. O dossiê da campanha aponta que a solidão pode ser agravada por fatores como a demora na regularização documental, a sobrecarga do trabalho de cuidado, que costuma recair sobre as mulheres, a precarização do mercado de trabalho e episódios de discriminação e barreiras linguísticas, que acabam afastando muitas migrantes dos espaços de convivência e participação social.Para a psicóloga, a solidão vivida pelas mulheres migrantes não deve ser encarada como uma fragilidade individual. "Essa solidão é sistêmica. Ela é coletiva. Ela não vem de um mérito individual", afirma.Mais do que chamar atenção para o problema, a campanha pretende criar uma comunidade permanente de apoio entre mulheres migrantes. A próxima etapa prevê a formação de núcleos locais e a realização de encontros presenciais para fortalecer esses vínculos. "A nossa verdadeira intenção é criar esse lugar nosso, de amparo", diz Alessandra.Os encontros presenciais ocupam um papel central na proposta. Diferentemente de grupos terapêuticos, eles são pensados como espaços de convivência, escuta e construção de confiança. Cada participante pode compartilhar experiências, apenas ouvir ou simplesmente estar presente. A intenção é criar um ambiente onde os vínculos se formem de maneira natural, permitindo que o sentimento de pertencimento seja construído coletivamente.Ela acredita que, embora as redes sociais e as ferramentas digitais facilitem o contato, elas não substituem a convivência. "Tem o abraço, tem o olhar, tem ouvir a história da outra", afirma. Para a psicóloga, é justamente nesses espaços presenciais que se constroem relações de confiança e acolhimento capazes de reduzir o isolamento vivido por tantas mulheres migrantes.A iniciativa foi criada no âmbito da Academia Comum, projeto da associação Diásporas voltado ao fortalecimento da participação de mulheres migrantes. O financiamento é da União Europeia (UE), com apoio do Netherlands Helsinki Committee e da Catalyst for Change.amanda.lima@dn.pt.O peso de ser brasileira em Portugal: 288.788 cidadãs que ainda sofrem com imagem estereotipada.Advogada lança série sobre os impactos da burocracia na vida de imigrantes em Portugal