Brasileiras e brasileiros em Braga têm sido surpreendidos por fiscalizações de agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) à paisana. O DN Brasil soube de casos em que foi emitida a Notificação de Abandono Voluntário (NAV) após abordagem no principal centro comercial da cidade. Em dois casos, segundo a advogada Joise Leal, os imigrantes possuem direito de estar no país. Uma das brasileiras abordadas foi Ana*, por volta das 23h, na saída do Braga Parque. "Estava saindo do Braga Parque com o meu companheiro e fomos abordados por dois policiais à paisana, que mostraram o distintivo de identificação e pediram para ver a documentação. Pediram foto do passaporte e foto do visto de entrada", conta. Logo após a abordagem, mais dois policiais que estavam dentro do centro comercial juntaram-se à fiscalização do casal.Os agentes pediram o passaporte físico, que a imigrante não tinha em mãos. Ela mostrou o número do protocolo da ação judicial referente ao pedido do título de residência. O companheiro, que já possui título de residência, foi até a casa do casal buscar o passaporte. Enquanto isso, a brasileira foi levada, em uma viatura descaracterizada, para a sede do comando da PSP de Braga.Após a averiguação dos documentos, foi emitida a NAV. "Fiquei por volta de 40 minutos aguardando eles dizerem se eu estava liberada. Pegaram meu passaporte e levaram para outra sala para averiguar se era original; passaram uma luz especial nele. Logo em seguida, disseram que não havia nenhum processo em meu nome e que pode ser que a advogada tenha me passado a perna, e que teriam que me notificar com uma Notificação de Saída Voluntária do país", relata.Ainda segundo Ana*, houve ameaça por parte dos agentes. "Ou eu voltava para o meu país e pedia o visto de trabalho para conseguir me regularizar, fora isso seria impossível eu continuar aqui. Disseram também que, se me pegassem novamente, eu iria direto para julgamento em tribunal", destaca..PSP afirma que imigrantes à espera de decisão judical para CPLP podem receber notificação de abandono voluntário.A advogada Joise Leal entrou com uma ação cautelar no Tribunal Administrativo para suspender a decisão. Segundo a profissional, "enquanto o imigrante está em processo de regularização, ainda não definido e analisado pelo Estado, não se pode punir o imigrante nem expulsá-lo sem que seja analisado o mérito da ação judicial que tem como escopo a concessão da residência".Esposa e enteado de cidadão portuguêsEm outro caso defendido pela advogada, a esposa de um cidadão português e o enteado, de 18 anos, também receberam a carta de abandono. A abordagem foi a mesma: policiais à paisana dentro do centro comercial. Eles foram levados ao posto policial e lá receberam a notificação.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsAppDe acordo com a advogada, a lei é clara nesse caso. "É frontal ofensa à Diretiva 2004/38/CE e à Lei n.º 37/2006. Além disso, foram notificados com cinco meses de permanência aqui, ou seja, em tese ainda estariam dentro do prazo legal, considerando a prorrogação. Mas, por se tratar de familiares de cidadão da UE, a falta de registro ou de título é mera formalidade administrativa, sem efeito constitutivo", afirma Joise.Ainda segundo a profissional, a situação é "juridicamente inadequada" em razão do casamento. "A abordagem realizada pela Polícia de Segurança Pública aos meus clientes revela uma atuação arbitrária e juridicamente inadequada, sobretudo no que respeita à esposa e ao enteado de cidadão português, que não se enquadram no regime geral de imigração, mas sim no regime jurídico especial aplicável a familiares de cidadãos da União Europeia, consagrado no direito europeu e transposto para a ordem jurídica portuguesa", relata.Joise lembra que o reagrupamento familiar só não está formalizado por falta de vagas na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). "Esta é uma situação que não decorre de qualquer omissão dos interessados, mas sim da reconhecida ineficiência administrativa do Estado, que tem impedido o acesso efetivo aos mecanismos de regularização", pontua.Sobre o caso da cliente com ação judicial, define como "grave" a aplicação da medida de saída do país. "É absolutamente inadmissível que, em pleno Estado de Direito, não exista um sistema eficaz de articulação e consulta entre o departamento jurídico da AIMA e a PSP/GNR, expondo pessoas em situação documental controlada e judicializada a constrangimentos indevidos", critica.Em relação ao tipo de abordagem, a advogada defende que "o respeito pelos direitos fundamentais, pela legalidade administrativa e pela dignidade humana deve prevalecer em qualquer atuação das autoridades". O DN Brasil enviou questionamentos à PSP sobre todas as situações relatadas neste texto, mas não obteve retorno.*Nome fictícioamanda.lima@dn.pt.O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Retorno voluntário de imigrantes ilegais aumentou até quatro vezes mais em 2025.PSP no Porto emitiu 106 notificações para abandono voluntário e 53 detenções de imigrantes