Quando o MIMO Festival desembarcou em Portugal, em 2016, a intenção não era apenas a de levar músicos brasileiros para palcos europeus e sim provar que um modelo de festival criado em Olinda (PE), baseado na ocupação do patrimônio histórico, na gratuidade e no intercâmbio entre diferentes culturas, também poderia transformar cidades portuguesas. Dez anos depois da chegada ao país, o projeto inicia agora uma nova etapa em Guimarães, que iniciou a mostra de cinema no último sábado (27) e agora prepara o início do festival musical na próxima sexta, dia 03 de julho). "No Brasil, quando a gente fala sobre internacionalização, só se fala de artista e me sinto às vezes um pouco solitária nesse papel, porque sou uma gestora capaz de envolver um país com um festival brasileiro. Estamos muito acostumados a comprar os festivais internacionais, como o Lollapalooza, Primavera Sound... mas também podemos exportar um modelo de cultura que nasceu no Brasil", afirma Lu Araújo, criadora e diretora do MIMO, em entrevista ao DN Brasil. Lu, que defende que o maior legado do festival vai muito além da programação artística, conta que a escolha por Portugal para internacionalizar o festival há mais de uma década aconteceu de forma natural. Desde as primeiras edições, o MIMO ocupava centros históricos brasileiros marcados pela herança portuguesa tais como Olinda - onde o festival oi criado há mais de 20 anos - Ouro Preto, Paraty e Tiradentes. Quando decidiu atravessar o Atlântico, Lu procurava justamente uma cidade onde patrimônio e cultura dialogassem de forma semelhante. "Como sempre trabalhei com a lógica do património histórico, todas as cidades brasileiras onde o MIMO aconteceu tinham um pouco de Portugal. Fazia sentido continuar essa história aqui". Em Amarante, a diretora acabou encontrando o ambiente ideal para testar o processo de internacionalização do festival, tendo um sucesso imediato, com a primeira edição reunindo cerca de 24 mil pessoas. No segundo ano, o público saltou para aproximadamente 60 mil visitantes, patamar que o festival manteve desde então - houve também uma edição no Porto pelo caminho. Agora, o MIMO inicia uma nova fase em Guimarães, cidade considerada o berço de Portugal e Património Mundial da UNESCO. A mudança representa, segundo Lu Araújo, um passo importante tanto pelo simbolismo histórico quanto pela estrutura cultural do município."Estou indo para uma cidade onde a cultura é muito importante. Guimarães foi Capital Europeia da Cultura, tem teatros, museus, um patrimônio preservadíssimo. E, para mim, como brasileira, existe um simbolismo enorme em realizar o festival justamente na cidade onde Portugal nasceu. Nosso palco principal ficará no Campo de São Mamede, onde aconteceu a batalha que marcou o nascimento do país. Está cheio de simbolismo", reflete. Um festival internacionalEmbora tenha origem brasileira, o MIMO nunca se definiu como um festival de música brasileira. A proposta sempre foi reunir artistas de diferentes países, estilos e gerações, promovendo encontros pouco convencionais nos grandes festivais. "O MIMO é um festival internacional. Ele não é brasileiro nem no Brasil. Sempre foi internacional. O que levamos daqui é um jeito de pensar cultura, diversidade e ocupação dos espaços públicos". Essa ocupação é justamente um dos maiores diferenciais do festival. Em vez de concentrar toda a programação em um recinto fechado, o MIMO transforma a cidade em palco. Igrejas, praças, museus, largos e espaços históricos recebem shows, cinema, oficinas, debates e encontros com artistas. "Eu não cerco um parque nem crio um espaço isolado. A gente ocupa uma cidade inteira. Durante aqueles dias, parece que tudo treme um pouco. A cidade muda de ritmo, ganha outra energia. É como se ela despertasse para novas possibilidades", diz. Além do impacto cultural, Lu destaca os efeitos provocados pelo festival na economia local. Segundo ela, o MIMO também funciona como uma ferramenta de desenvolvimento regional, atraindo visitantes que permanecem durante vários dias nas cidades anfitriãs."O MIMO atua dentro da lógica da cultura, mas também do turismo. Ele leva uma grande camada de público para essas cidades, que pernoita, consome nos restaurantes, movimenta hotéis e o comércio local. Isso faz diferença principalmente em cidades que estão fora dos grandes circuitos". Toda essa estrutura, no entanto, depende de um desafio permanente no funcionamento do MIMO: manter um festival internacional completamente gratuito. "Eu não tenho um único ingresso para vender. Preciso fazer tudo dentro do orçamento que consigo reunir. Em anos difíceis, com guerras, inflação e aumento dos custos, administrar esses recursos sem perder qualidade é um enorme desafio. Mas também é uma felicidade enorme ver um público tão diverso ocupando os espaços da cidade."Festival de Cinema independenteA edição de 2026 marca ainda uma novidade importante: pela primeira vez, o MIMO tem um Festival de Cinema independente da programação musical. Durante seis dias - teve início no passado sábado - , Guimarães exibirá filmes dedicados exclusivamente à música, muitos deles inéditos em Portugal, ampliando a proposta de transformar o evento numa experiência artística mais abrangente. "Percebi que o cinema acabava perdendo espaço quando concorria diretamente com os espetáculos. Agora conseguimos dar protagonismo aos filmes e criar uma experiência própria, ocupando também os espaços públicos da cidade". Já na programação musical deste ano, artistas como Tricky, Oumou Sangaré, Fernanda Abreu, Daddy G, Don Letts, Alaíde Costa, Zé Ibarra, Barbatuques e Bianca Gismonti representam uma curadoria que aposta na convivência entre tradição e inovação, aproximando música clássica, jazz, hip hop, sonoridades africanas, música popular brasileira e experiências contemporâneas - veja a programação completa em mimofestival.com."Fazer um festival multigênero é muito mais difícil do que fazer um festival de rock ou de jazz. O desafio é combinar linguagens completamente diferentes e fazer tudo conversar. Esse sempre foi o frio na barriga do MIMO", revela Lu. Antes de encerrar a conversa com o DN Brasil, Lu Araújo fez um convite especial aos brasileiros que vivem em Portugal. Com comunidades numerosas em cidades na região de Guimarães, como Braga, ela acredita que o festival também pode funcionar como espaço de integração entre imigrantes e portugueses."Os brasileiros são necessários para o festival, acho que podemos ser um exemplo de boa convivência. Onde tem brasileiro, tem energia, festa, sorriso no rosto. Temos um carisma e uma alegria que contagiam. Quero que eles ocupem o festival, porque essa energia também faz parte da identidade do MIMO", sublinha. Com quase 60 atrações, representantes de 13 nacionalidades e uma década de história em Portugal, o MIMO inicia o novo capítulo desta edição na Cidade Berço apostando na mesma fórmula que o tornou referência desde o início do século: fazer da música uma ponte entre patrimônios históricos, culturas e pessoas - sem ingresso para chegar junto e com uma cidade inteira como palco.nuno.tibirica@dn.pt.Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 29 de junho de 2026..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Caetano Veloso emociona público no Coala Festival e deixa no ar possível adeus a Portugal.Artista pernambucano Otto será a atração brasileira no Festival Músicas do Mundo, em Sines