Lidar com os desafios que a vida em outro país traz pode ser um processo doloroso, que precisa de acompanhamento. A análise é da psicóloga Natália Dalpiaz, fundadora da plataforma Prô Mundo, que é dedicada exclusivamente ao atendimento online de brasileiros que vivem no exterior."A gente fala que a da missão da empresa está muito esse lugar de transformação da vida dos imigrantes e das psicólogas que estão na nossa rede, mas a verdade é que o processo migratório em si já é uma transformação. Tem muita dor nesse nesse ínterim. E às vezes vem uma autocobrança muito grande de 'eu tenho que seguir o objetivo, eu tenho que alcançar', né? Por mais que seja o motivo, que algumas pessoas vão buscar terapia para autoconhecimento, a verdade é que a maioria busca por dor", explica Natália ao DN Brasil.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsAppO cuidado direcionado a quem vive em outro país nasceu das experiências pessoais da psicóloga. Em 2017, depois de fazer um intercâmbio de seis meses em Londres, começou a observar "muitas situações que os agentes das agências tinham que lidar, né? Sem um preparo para entender os processos mentais que as pessoas estavam vivendo ali", conta. De volta ao Brasil, "comecei a fazer uma especialização em sistêmica e durante a observação de alguns tópicos da abordagem, tendo essa abertura de alguns autores que também viveram processos migratórios".Foi apenas em 2018 que o Brasil permitiu que psicólogos pudessem realizar plenamente atendimentos online. Até então, um paciente que ia para fora do país podia fazer apenas 20 sessões de acompanhamento à distância. Com a mudança, a Prô Mundo ganhou forma. "O atendimento psicológico não é igual em todo lugar do mundo. Então o brasileiro se sentia muito mais acolhido em uma terapia com a psicóloga que entendesse do contexto dele antes de mais nada. Ali começou meu trabalho e eu fui prosperando muito rapidamente. Em dois anos, eu estava com a agenda cheia de brasileiros em diferentes lugares do mundo, que complicava, já que eu estava aqui no Brasil, atendia ás 6 horas da manhã porque alguém estava na Nova Zelândia, à meia-noite", relembra Natália.Como funcionaConsiderada a primeira plataforma do Brasil com foco neste público, aos poucos, a Prô Mundo foi integrando novas profissionais. Hoje, funciona com uma base de 18 psicólogas, todas brasileiras que vivem no exterior ou que já tiveram experiências de morar fora e atende de forma regular cerca de 400 pacientes, em mais de 40 países. Estados Unidos, Portugal, Japão e Austrália dominam entre os locais de residência de quem procura o serviço.O valor das consultas iniciais segue o padrão do que é praticado nos atendimentos clínicos no Brasil, custam 130 reais. Depois, o preço do acompanhamento varia de acordo com a profissional..Na plataforma, o paciente pode ver o perfil da cada profissional e escolher a que preferir, mas também pode responder a um questionário sobre algumas queixas e ser direcionado para uma psicóloga.Fernanda Bortolotto foi a primeira profissional a integrar o time de Natália. Gaúcha, atualmente vive no México, onde teve a primeira filha, experiência que traz ainda mais identificação com alguns atendimentos. "Tem muitas questões relacionadas a questões de adaptação. Também aparece muito questões de relacionamentos interculturais. Quando a gente fala da maternidade, a gente fala também então de todo o processo que está relacionado à maternidade no exterior, das expectativas que tem, dos lutos, porque existem lutos muito grandes também nesse processo e processos de culpa. Então escolhi viver. E para mim foi uma escolha. Não é todo imigrante que tem uma escolha, mas para mim foi uma escolha viver aqui no México. E a minha família está no Brasil, minha filha não está", diz ao DN Brasil.Natália Dalpiaz destaca também que não são apenas questões diretamente relacionadas ao processo migratório que chegam entre as queixas de quem procura atendimento. "Não necessariamente chegam na busca do nosso serviço porque identificam qual o fator do processo de adaptação à cultura do novo país que atravessa a dor que ele está tendo. Às vezes chega por ansiedade, depressão, porque quer uma especialista que trabalhe com TDAH", explica.Agora, uma das apostas da plataforma tem sido oferecer mais materiais de psicoeducação, além de um podcast e uma comunidade. "É uma plataforma externa ao nosso site, um espaço de bate-papo. A gente tem uma biblioteca com diferentes atividades. Mensalmente, tem uma atividade de aprendizado. Essa troca em aprendizado ela também é fortalecedora para o imigrante. Tem alguma especialista que se apropria mais de um espaço de fala terapêutico. Então o assunto ali não é para ser um conhecimento para eu ter um certificado, é um conhecimento acolhedor", completa a psicóloga..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Mulheres migrantes lançam campanha contra a solidão feminina em Portugal.Maioria dos brasileiros altamente qualificados teve "choque de realidade" com a mudança para Portugal