Dois terços dos profissionais altamente qualificados entrevistados para a pesquisa "Mapeamento da Diáspora Científica Brasileira em Portugal" tiveram que enfrentar uma quebra das próprias expectativas após a mudança de país. O estudo, que acaba de ser publicado em forma de livro, traz um capítulo dedicado às implicações subjetivas do processo migratório e aponta "a diferença entre a quantidade de sonhos, de projetos, a decisão de migrar para outro país, a alegria que isso traz, entre esse imaginário e a realidade encontrada aqui", explica ao DN Brasil o autor Francisco Carlos dos Santos Filho, psicanalista e diretor da Associação Científica de Psicanálise e Humanidades. De acordo com os resultados da investigação, "para algumas pessoas, foi muito difícil suportar isso. Alguns se saíram bem, outros sofreram bastante. Dois terços das pessoas sofreram com esse choque de realidade", afirma Santos Filho.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!Entre os motivos apontados pelos entrevistados está a xenofobia, que, na sua origem, siginifica aversão a estrangeiros. "É uma palavra forte, mas é a que eles usam, sim, para descrever milhares de pequenas situações cotidianas em que eles se sentem excluídos", diz o psicanalista.São vários os casos relatados, desde "preconceito, por ser brasileiro, por ser mulher, se a pele é escura, é pior", explica Santos Filho, destacando que a língua também surge como fator discriminatório."Isso quebra uma crença que está enraizada. 'Se nós vamos a Portugal, nós falamos a mesma língua'. É dito a eles que não. 'Isso não é português, estão falando brasileiro, é diferente, não é a mesma língua nossa'. Isso é utilizado como chacota, como desqualificação, alguns retratam como uma experiência desumanizante, por isso falam em xenofobia".As consequências são vastas, mas "não poder ocupar postos de trabalho, ter que ceder lugar a pessoas que têm uma qualificação igual ao pior, vai fazendo ruir o sonho do reconhecimento e a crença, nessa população, isso é importante frisar, de que a formação acadêmica nos defende do mundo das maldades, que se você tiver uma boa formação, ela vai ser reconhecida", completa o psicanalista..Mesmo com dificuldades, quando a investigação questiona o desejo para o futuro dos entrevistados, a maioria não considera voltar para o Brasil."Dizem que o Brasil é muito difícil, tem poucas perspectivas, mas aqui também não tem. Mas aqui tem menos violência, é muito seguro, aqui também tem dificuldades, mas a gente ainda pretende ficar", pontua o psicanalista. "Quando a gente pergunta sobre o futuro, é o contrário. Um quarto diz 'eu vou embora, é impossível me adaptar à sociedade portuguesa'. Três quartos querem ficar, ou em Portugal ou em outro país da Europa", completa.Para o pesquisador, os resultados reforçam que "é muito importante" não confundir o que é um momento vivido por estes imigrantes, que pode gerar sentimentos de tristeza que são uma "resposta afetiva, subjetiva, emocional a um contexto, que é o contexto da indignação", com uma doença de foro mental. "É preciso cuidar, evitar de dar diagnósticos psiquiátricos, entrar com tratamentos. A gente ouve falar muito até em startups de tratamento. Não é uma questão de tratar, é uma questão de ouvir, inclusive com políticas públicas que previnam essas experiências", afirma Santos Filho."Instrumento de gestão"Francisco Carlos dos Santos Filho é um dos organizadores do livro agora publicado, junto com o professor Victor F. A. Barros, da Universidade do Minho, e com a professora Andrea Oltramari, associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e investigadora colaboradora do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, que é a coordenadora geral da pesquisa.Entre outros aspectos, o estudo também indica uma maior dificuldade de entrada no mercado de trabalho para as mulheres, aponta que mais de 40% dos profissionais estão atuando fora da área de formação e que, para os jovens, pode levar de seis até sete anos para que consigam se encaixar.Para o embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreira, que assina o prefácio da obra, os resultados são mais do que um livro, são "um instrumento de gestão". Segundo a professora, com essa base de resultados vai ser possível "propor política pública, fazer circular esse conhecimento e circular no sentido de chegar essa informação para as pessoas e não tomarem decisões sem saber o que está acontecendo no campo", afirma ao DN Brasil.Os resultados destacam problemas recorrentes dos brasileiros que tentam exercer a sua formação em Portugal, especialmente a dificuldade com a validação e diplomas e reconhecimento de habilitações. Quanto mais este processo demora, mais difícil é trabalhar."Tem que acelerar a validação de diploma, tem que criar os mecanismos bilaterais, tem que dar mais robustez pra isso tudo. É política pública, é produção para-estatal e estatal dessa migração empreendedora e dessa migração qualificada", completa Andre Oltramari..Qualificados, mas barrados: estudo revela obstáculos estruturais ao emprego de imigrantes em Portugal.Governador do Banco de Portugal defende atração de imigrantes "licenciatura, mestrado, doutoramento"