Lula da Silva, que procura a reeleição para a Presidência do Brasil, lidera as principais pesquisas.
Lula da Silva, que procura a reeleição para a Presidência do Brasil, lidera as principais pesquisas.EPA/ANDRÉ BORGES

Eleições no Brasil. Pesquisas investem em inovação mas diversidade ainda é desafio

Clusterização espacial, modelo 'likely voter' e verificação por IA são novos métodos para decifrar as eleições de um país continental em que, segundo diretora do Datafolha, a rejeição será chave.
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Lula da Silva está um pouco à frente de Flávio Bolsonaro, os dois devem seguramente disputar a eleição voto a voto no segundo turno, e Augusto Cury lidera, à frente de Ronaldo Caiado e Renan Santos, o pelotão da terceira via. Este é o quadro geral que as pesquisas eleitorais desenham para a eleição de 4 e 25 de outubro – mas por trás dessas conclusões há muito trabalho dos institutos, que se dedicam dia a dia, ou hora a hora, a desvendar o eleitorado.

A Quaest, por exemplo, usa a “clusterização espacial”, uma técnica que agrupa municípios e setores censitários com características semelhantes para selecionar os 120 municípios da amostra. E o modelo “likely voter”, ou seja, não apenas pergunta em quem a pessoa pretende votar, como tenta estimar a probabilidade de ela comparecer mesmo à urna.

Já o Datafolha usa IA para controle de qualidade. “Utilizamos na 'checagem' dos questionários e em outros processos internos para agilizar as etapas das pesquisas, por exemplo, para comparar a gravação realizada pelo tablet no momento da entrevista com a resposta anotada pelo pesquisador no questionário. Isso garante uma checagem mais rápida”, conta ao DN Brasil a diretora-geral do instituto paulista, Luciana Chong Rodrigues.

Todos os principais institutos, no entanto, continuam a enfrentar velhos desafios num Brasil que reúne diversos Brasis: para se fazer uma pesquisa no quinto maior país do planeta é preciso ter em conta as enormes diferenças entre regiões e entre as grandes e pequenas cidades, além dos contrastes socioeconómicos, religiosos e culturais e do difícil acesso, por razões diferentes, tanto a favelas como a condomínios fechados.

“É um país muito grande e muito desigual em relação à renda e escolaridade, principalmente. Essa desigualdade é um dos fatores pelos quais consideramos que a abordagem presencial para pesquisa eleitoral ainda é a melhor forma para conseguirmos acessar os eleitores de todos os níveis sociais e em todas as regiões do país. Em algumas cidades do interior os pesquisadores, muitas vezes, precisam utilizar mais de um meio de transporte, como ônibus e até barco para chegar nos municípios mais afastados”, conta Chong.

A forte polarização – segundo a Quaest, os eleitores que não sabem se definir entre esquerda, centro e direita caíram de aproximadamente 20% em 2002 para cerca de 4% atualmente – é um dos dados políticos novos desde, sobretudo, 2018. Para a diretora-geral do Datafolha, “houve uma mudança significativa na política brasileira com a vitória de Jair Bolsonaro”. “Após sua vitória ficou muito evidente a divisão e polarização no país, fato que se mantém até hoje. Nesse mesmo período acompanhamos o crescimento expressivo das igrejas evangélicas e as pesquisas foram se adaptando para entender esses novos fenômenos”.

Este ano, em particular, foi fértil em episódios com peso no desempenho dos candidatos nas pesquisas: as suspeitas em torno de Lulinha, que impactou nas intenções de voto no pai, a briga entre Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, e Flávio, que ainda sofreu com o escândalo em torno do pedido de dinheiro ao banqueiro corrupto Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, e, nos últimos dias, a ligação do mesmo Vorcaro com Alexandre de Moraes e outros juízes do Supremo Tribunal Federal.

Em paralelo, a ascensão de Augusto Cury talvez tenha sido o caso mais interessante para as pesquisas: o psiquiatra saltou de 2% para 8% no Datafolha entre agosto e setembro graças a uma explosão nas redes sociais na sequência do debate na Band a que Lula e Flávio não compareceram. “Mas essa eleição é principalmente, assim como a de 2022, uma eleição de rejeição, uma parte dos eleitores escolhe o candidato para evitar a vitória do outro e não necessariamente por suas propostas”.

E a emigração? Em 2026, o eleitorado exterior, segundo o site do Senado Federal, é de 918.876 eleitores, contra pouco mais de 697 mil em 2022 (com Portugal como segundo maior colégio, atrás apenas dos EUA), mas ainda assim é só 0,5% do eleitorado. Vale, portanto, a pena fazer pesquisa de campo fora do Brasil? “Não, é um contingente importante mas pequeno, seria uma tarefa difícil acompanhar as eleições em outros países”, diz Luciana Chong.

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