Há alguns dias, participei de um workshop de criação de zines junto a outras mulheres para retratarmos em colagens, palavras, escritos e desenhos nossa experiência com os cuidados de saúde reprodutiva em Portugal. A pergunta de partida investigava se o acesso aos serviços era igual para todas as mulheres e quais as barreiras enfrentadas.Um grande mesão foi montado nos jardins da Biblioteca do Palácio Galveias para receber pelo menos vinte pessoas, entre portuguesas, brasileiras e imigrantes de outros países. A iniciativa marcou o lançamento público de um projeto focado em temas como aborto, contracepção, endometriose, menopausa e violência obstétrica.Fomos incentivadas pelas pesquisadoras a nos expressar com liberdade e ousadia dentro do que estávamos dispostas a partilhar. Eu tinha sido convidada para a atividade por um casal de amigos e o que, a princípio, parecia fácil e simples (era só comentar o que tinha vivido) começou a despertar as entranhas à medida que o evento se aproximava.Apoiada pela arte, pude ir montando meu quebra-cabeça e acolhendo um percurso pessoal desafiador. Não havia certo nem errado, mais ou menos talento e sim memórias e superações. Intitulei meu zine como “Mais do que números, somos história” para descrever o espinhoso caminho que é ter endometriose e adenomiose. Desinformação, diagnóstico tardio, sentimento de culpa, dores infinitas e rótulos de fraqueza e exagero.Comecei a atividade com dor de cabeça, corpo retesado e uma resistência interna que bloqueava as ideias e uma linha narrativa. Percebi que o tema, já objeto de muita análise, ainda apresentava mais camadas a serem descascadas. São quase quinze anos de uma jornada marcada pelo silogismo “ser mulher é sentir dor”, cirurgias e decisões irremediáveis sobre o corpo.Mas a arte, como mágica, promove um espaço de sublimação. Vamos soltando as amarras, seja quando ouvimos as experiências de outras pessoas ou quando damos vazão ao nosso sentir.Naquela tarde, foi comum o relato sobre falta de acolhimento, burocracia do sistema, experiência racializada, atendimento sem empatia (inclusive por profissionais mulheres), retrocesso na legislação e a lacuna que ainda persiste nos estudos sobre a saúde feminina. Houve também depoimentos positivos, em menor escala, mas uma brisa em terra quente.A cada exposição, nos reconhecemos umas nas outras. Olhares, aplausos e palavras de encorajamento. Debater sobre o assunto é um processo fundamental de elaboração e troca de saberes. Além de essencial para situar as muitas questões que precisam avançar, o que passa pelo direito universal da mulher à vida, à liberdade e à segurança pessoal.Produzimos no encontro materiais significativos perpassados por afeto, dureza, ironia e a conclusão de que ser mulher é viver em estado de coragem.Ao fim da dinâmica, para além das nacionalidades e desventuras, éramos mulheres comprometidas com um existir melhor e mais digno. Para nos mantermos de pé, alternamos estratégias de força, recuo, defesa e combate. E cada nova conexão pode ser o justo reforço que precisamos para continuar..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..O ordinário do cotidiano.Crônica. O corpo que migra