Crônica. O corpo que migra

"Cuidamos para estar em dia com vacinas, exames, medicamentos e cruzamos os dedos para não precisar de alguma intervenção mais séria. Quem nunca aproveitou a viagem de férias ao Brasil para também fazer todas aquelas consultas com os médicos de preferência?"
Crônica. O corpo que migra
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Quando imigramos trazemos nossas memórias, medos, ansiedades e torcemos para que o corpo aguente a sucessão de mudanças porvir. Um corpo que migra é aquele que vai precisar ser mais - resistente, desbravador, disposto. Mas será que estamos suportando todas essas condições?

Não raro, tenho observado pessoas (inclusive eu) em estado ou picos de exaustão - emocional abalado, memória com falhas, irritação constante. E o corpo travado. São ciclos intermináveis de fisioterapia, sessões com psicólogo aqui e ali, combo de remédios, terapias alternativas. Cada um buscando solução enquanto administra sensações tão comuns de falha e culpa.

Até chegar uma hora em que o corpo não responde às obrigações e já não é possível adiar o descanso. É quando a gente percebe que não tem todo o controle esperado. E é meio assustador se deparar com a pausa, ainda mais sendo imigrante, pois um dos aspectos mais delicados quando se muda de país é a questão da saúde.

Cuidamos para estar em dia com vacinas, exames, medicamentos e cruzamos os dedos para não precisar de alguma intervenção mais séria. Quem nunca aproveitou a viagem de férias ao Brasil para também fazer todas aquelas consultas com os médicos de preferência?

O corpo que migra precisa se fortalecer e diminuir o volume dos pensamentos intrusivos, porque nessa hora aparece o medo de não ter dinheiro para emergências ou rede de apoio, de não dar conta do trabalho. E por aí vai.

Somado a isso, enfrentamos debates sobre pacote laboral, escala 6x1, IA, profissionais altamente qualificados e o futuro do trabalho. Discussões que impactam o instinto mais básico do ser humano - a capacidade de sobrevivência.

Só que o esgotamento não pede licença, não escolhe momento ideal. Ele comparece para testar limites e dizer basta.

Com isso, tem gente que se reinventa, encerra ciclos, restabelece prioridades ou até retorna ao país de origem. E há pessoas que voltam ao ponto de parada, repetindo e repetindo mais do mesmo.

Será que o corpo de hoje está pronto para nossos planos de futuro?

Enquanto busco respostas, reflito sobre o corpo que migra e

precisa se proteger

que carrega novas doresque aprende a dizer não

e vive a solitude

que nem sempre está bem

mas que precisa aprender a confiar.

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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