O ordinário do cotidiano

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Quem repara no ordinário do cotidiano? Nos diálogos em fila de supermercado, no guardanapo voando da mesa, em quanta gente usa ecobag, no estranho que lança um “bom dia” ao cruzar com alguém pelo caminho, no rapaz puxado pelo próprio cão? Onde tudo isso fica registrado? Talvez na memória de quem o viveu ou no inconsciente de algum observador. Para o escritor, o rotineiro torna-se material de trabalho.

Por esses dias, participei de uma conversa mediada por um historiador junto a dois escritores brasileiros. Falamos sobre a poética do cotidiano para além do Atlântico e como essas percepções transformam-se em crônicas. Esse justo espaço que temos aqui tratando do breve e vulgar da vida comum.

Refletimos sobre a familiaridade e o estranhamento de alguém que está deslocado de seu território e contempla a cidade com ressalva e interesse. Um olhar imigrante que escreve sobre o diverso jeito de estar no mundo. E que, mesmo quando se acostuma com as ruas, com as pessoas, renova o senso de encantamento para continuar enxergando o simples.

A curiosidade do cronista é uma lupa que extrai da miudeza, do detalhe, a inspiração para palavras que podem chegar não se sabe onde nem a quem. Mas quando conectam, suspendem o instante.

Era sexta na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, quando cruzamos nossas vivências de Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Lisboa e Porto para contar o que nossos sentidos percebem como casa, pertencimento e rejeição. Um dos escritores relatou a frase que ouviu de um desconhecido no metro, logo no primeiro deslocamento lisboeta: “Brasileiros, deviam morrer todos.” Entre susto e questionamento, decidiu que a declaração não definiria seus dias de viagem tampouco generalizaria um povo.

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Já o mediador da mesa, partilhou o preconceito que experimentou há alguns anos enquanto recifense participando de um evento sobre História Política no Rio de Janeiro. Ali na conversa, emergiram as conhecidas fricções entre Nordeste/Sudeste brasileiros, somaram-se também o São João do Cariri e do Porto, as periferias cariocas e lisboetas numa linguagem que abordou o paradoxo das interações. 

O renomado geógrafo brasileiro Milton Santos foi citado no debate para lembrar que o lugar vai muito além do espaço geográfico. É nele onde o ser humano estabelece suas relações e a dinâmica da vida, a cooperação e o conflito, além de um cotidiano compartido. O lugar implica as experiências que o sujeito irá acessar ou não ao longo da sua existência. Repercute também no “lugar de fala”, conceito tão difundido pela escritora Djamila Ribeiro.

De onde partimos quando falamos? Quais privilégios ou faltas moldam nossas percepções?

Conversamos ainda sobre os possíveis impactos que um texto promove. Sendo o cronista uma espécie de testemunha vigilante que aponta obviedades: a folha em formato de coração na beira da calçada, o tipo de lixo descartado por cada um, o desejo pelas comidas da terra. Ou a redução de abraços desde quando alguém migra, como bem destacou a escritora brasileira integrante da prosa.

A crônica não se propõe a dar lição de moral, mas não resulta em um texto alienado. Embora tenha “a seriedade das coisas sem etiqueta”, na definição do escritor Ferreira Gullar.

É um gênero que sabe sobre a Copa do Mundo, a onda de calor pela Europa, o endividamento pelos jogos de aposta, a demissão do primeiro-ministro britânico. Ainda assim, o cronista escolhe também perguntar se alguém adota o domingo como aquele tempinho para fazer só o que der vontade, repetir o pequeno-almoço vezes sem conta e se maravilhar com a foto de uma flor enviada por um amigo numa viagem ao Peru.

O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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