Para que serve a poesia? “Todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia”, já dizia o poeta brasileiro Manoel de Barros. Ele, que foi um “desinventor” de palavras, enxergava as coisas simples em sua grandeza de desimportâncias.Na Feira do Livro de Lisboa, por onde passaram mais de meio milhão de visitantes, o vento, o sol, a voz anunciando a programação no alto-falante, pessoas se bronzeando no gramado e até os silêncios foram matéria de poesia.Quiromancia, borras de café, trevo de quatro folhas fazem poesiaAvestruz e o Satanás Lilás do Diego fazem poesiaPoesia no diálogo transatlânticoPoesia pintada, encenada, vivida.Entre os muitos eventos que ocorreram nas praças da Feira, tive a oportunidade de mediar uma conversa com três autores brasileiros sobre o tema: “A próxima revolução também será poética”. Dois deles vivem em Portugal e o terceiro, premiado escritor, atravessou as águas para falar que escrever é um fogo muito antigo, e por isso é importante pedir licença a quem veio antes para que se possa perpetuar essa chama. O nome - Marcelino Freire - um escalavrador de palavras, entre tantos outros dons.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!“Toda revolução é poética. Tudo que eles não gostam é de poesia”, destacou Marcelino. “Todos os regimes totalitários, todos os fascistas não gostam de poesia. A poesia tira as coisas do lugar, a poesia desdiz, combate, revoluciona”.Estamos dispostos a sair do conforto, dos privilégios e deixar a poesia fazer sua mágica?O escritor encorajou os nossos sentidos ao lembrar que as pessoas chegam para a poesia querendo entender tudo, quando nem mesmo o poeta tem total compreensão do que pôs ali. “A literatura é como você entrar numa selva, você se perde, quando sai do outro lado a experiência está feita. A gente chega a um livro para adquirir sentimento, não é entendimento.”Poesia como prescrição para uma vida mais sã (avaliam os governos, recomenda uma amiga).Poesia para não ser mais tóxica, aponta a Duda em As Contentes.Poesia pelas letras de Florbela Espanca, Adélia Prado, Miró da Muribeca, Fernando Pessoa.Poesia no afago entre ele e ela, dentro do stand, por trás dos livros, numa defesa ao calor de quase 40 graus. Espiei.“Às vezes, pertencer não é nascer em um local, é amar” (frase que me encantou numa apresentação).Ainda nesse preciosismo de encaixar significados, sendo a poesia o terreno do improvável, recorro a Manoel de Barros na definição de poeta. No seu glossário de transnominações, ele escreve: “Poeta, s.m e f. - Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu / Espécie de um vazadouro para contradições”.O poeta parece um enxergador sem embrulho.Lembro-me da época em que uma amiga mandava áudios lendo poemas, ou quando um colega, ator e músico, começou a enviar bom dia com versos recitados. Eu ia do espanto ao riso e o dia corria diferente. Também ensaiei vídeos com declamações. A partir das coragens desses amigos, entendi que todos podíamos, que a poesia era coletiva e parte da vida. Arrisquei.O período ainda não era de pandemia, quando muitos inventaram seus talentos. Era só pouso. Eram nossas revoluções poéticas em movimento e que até agora reverberam por aqui..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Para além da contagem de anos.Miúdos da Ponte. Já te ofereceram um café sem princípio? Calma! Tá tudo certo