Completei oito anos de Portugal neste sábado, quase uma década, e reflito sobre o quanto a vida imigrante passa por fases. Parece um combo de destinos com bifurcações, encruzilhadas e, com sorte, algumas portas. Atravessamos surpresa, encantamento, ansiedade, dúvidas, vontade de recuar, autoquestionamento. E seguimos, alternando sentimentos e escolhas em busca do bem-viver.O que é certo é que não somos mais os mesmos de quando emigramos. Expandimos nossas referências e habilidades de adaptação, em velocidade diferente para cada pessoa, mas desenvolvendo qualidades importantes tanto para trabalho como para a vida pessoal.Há gente que nesse tempo de distância ainda não retornou ao próprio país, seja de férias ou como breve passeio. Existem aqueles sortudos que podem viajar a trabalho e assim vivenciar um pé lá e cá, de vez em quando. Alguns simplesmente não desejam visitar a terrinha, enquanto outros não reuniram as condições favoráveis. “Um dia, vai dar certo ir com as crianças”, já ouvi o desabafo sonhado. Conheço imigrantes que perceberam não necessitar de muito tempo para atenuar a saudade: “Apenas uma semana é o suficiente e já quero voltar”, uma amiga confessou.O interessante de experimentar a migração é se deparar com uma nova perspectiva do que significamos como “para sempre”. Uma vez viajados, pode ser que hoje estejamos em Portugal, e daqui a uns anos escolhermos outra região. Às vezes, nem precisa de anos. Tenho uma amiga que vive entre países, pois o movimento corre no sangue dela.Vi colegas retornarem ao seu país por entenderem que um ciclo encerrou. Decisão ponderada, planos reajustados e prontos para uma nova transição.Além disso, existe também a efemeridade das moradas dentro da cidade que habitamos. Na época dos nossos pais podia ser comum viver décadas em uma mesma casa. Na vivência imigrante, vamos torcendo para o endereço se fixar por um período mínimo estável. Principalmente, pela paz interior de não enfrentar a burocracia para alterar os registros nas Finanças, banco, centro de saúde e mais uma série de serviços relacionados.Essa “fragilidade” residencial ficou bem evidente na visita recente a Aveiro. Fui passar o fim de semana na casa de uma amiga para aproveitar a companhia, cumplicidade e mergulhos no mar. Numa noite, fomos conhecer um espaço criado por um francês lusodescendente. Um café-livraria que propõe várias dinâmicas, entre jogos de tabuleiro, leitura à luz das velas, quiz, bebidas inspiradas em escritores e envio de cartas para o futuro.No Pela Estrada Fora, nome em homenagem à obra homônima do escritor Jack Kerouac, é possível escrever para si mesmo ou para outra pessoa e escolher o envio da carta para o dia seguinte ou para até cinco anos. O cliente contrata a experiência e o proprietário envia na época escolhida. Enquanto isso, as missivas são lacradas e ficam expostas em uma parede com caixas transparentes datadas.Já fiz essa atividade de escrever para o eu futuro, conservando a correspondência dentro de uma agenda para ser aberta no prazo de doze meses. É interessante perceber o que desejamos para nós na perspectiva de um ano, o que se concretizou e o que ficou pelo caminho. Alguns objetivos perdem o sentido, as prioridades se revezam. É uma cápsula de esperança, entusiasmo e fé em si mesmo.Quando pensei em me corresponder comigo mesma naquela noite descontraída e despretensiosa, a principal dúvida foi saber onde eu estaria morando nesse porvir. Qual seria a direção do destinatário? Nessa vida imprecisa, como a maioria é, só sabemos que moramos em nós mesmos..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..O ordinário do cotidiano.Crônica. O corpo que migra