O molho brasileiro e, finalmente, a latinidade como desejo de consumo

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Ser brasileira em Portugal nunca foi neutro. No começo, foi, muitas vezes, um exercício de resistência. Houve uma época em que eu vivia dois mundos. Um com aliança no dedo. Outro sem. E é impressionante como um pequeno círculo de metal muda a forma como te olham. Com aliança, eu era “a brasileira casada”. Sem aliança, depois do divórcio, vinham as perguntas diretas, atravessadas, constrangedoras. Já ouvi — sem rodeios — insinuações e comentários baseados naquele estereótipo velho e preguiçoso: o de que “as brasileiras roubam os maridos das portuguesas”.

Não é teoria. É vivido. É pele. É silêncio engolido seco.

Ser brasileira em Portugal exigiu, sim, encarar preconceito. Olhares. Subtextos. Perguntas que não se fazem. Durante muito tempo, aprendi a ocupar menos espaço, a falar mais baixo, a suavizar o meu jeito, a evitar decotes, estampas — e isso também entrou no meu trabalho, na forma como eu tentava adaptar a minha fotografia a um mercado que preferia tudo muito limpo, muito organizado, muito contido. Uma estética Pinterest da vida. Bonita. Mas frequentemente distante da vida real.

Eu, não. Eu sempre fotografei com excesso de gente dentro. Com história. Com toque. Com silêncio. Com emoção. Ser resistência em meio à imigração e aos desafios de fazer um negócio andar no mercado parecia, muitas vezes, desesperador.

Passei anos tentando caber. Mas não dá para quem tem o Rio de Janeiro moldado nas células da alma.

E então, alguma coisa começou a mudar. A imigração brasileira pelo mundo ajudou. Parece que, mesmo nós, brasileiros a viver fora, estamos a fazer um trabalho conjunto: levar ao mundo a nossa linguagem.

Nos últimos seis meses, nunca recebi tantos pedidos de orçamento. Nunca tantas mensagens de famílias querendo que eu conte as histórias delas. E tem uma pergunta no meu questionário que continua a me surpreender: “Por que você quer que eu fotografe a sua história?” Cada vez mais, a resposta vem assim:

“Porque você é brasileira e eu gosto da forma como vocês veem as emoções.” Isso não nasceu comigo. Eu sei. Isso é colheita.

É fruto de décadas de artistas que foram abrindo caminho. Clarice Lispector me ensinou que o que não se diz também é narrativa. Jorge Amado me ensinou que corpo e desejo também são literatura. García Márquez e Isabel Allende me ensinaram que emoção e realidade não precisam pedir desculpa. Caetano, Gil, Tom Jobim, Marisa Monte me ensinaram que sofisticação não precisa ser fria. E a televisão brasileira — com todas as suas contradições — ensinou meio mundo a sentir junto no sofá.

Eu sou feita dessas referências. A minha fotografia é consequência disso. É estética, sim. Mas é sobretudo sensorial. É sobre vínculo. Sobre gente. Sobre o que sobra quando a pose acaba.

Durante muito tempo, isso foi visto como “demais”. Emocional demais. Narrativo demais. Latino demais.

Hoje, curiosamente, estamos “na moda”.

Depois de mais de dez anos em Portugal, o preconceito não desapareceu — seria ingenuidade dizer isso. Mas há uma virada real: o que antes era lido como excesso agora começa a ser entendido como linguagem. O que antes precisava ser justificado agora é procurado.

Talvez este seja o melhor momento: o momento em que não somos apenas desejados, mas finalmente um pouco mais compreendidos — ainda que haja muitos estereótipos a quebrar.

E eu quero, sim, desfrutar disso. Mas quero também dizer, em voz alta, para outros brasileiros: sejam quem vocês são. Não diminuam o sotaque. Não limpem demais a emoção. Não peçam desculpa pela intensidade. Esse tal “molho” que tentaram nos fazer esconder é, afinal, exatamente o que nos trouxe até aqui.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu já não sinto que preciso falar mais baixo — nem fotografar menos emotivo, nem perseguir menos perfeição estética, e sim mais conexão, como sempre foi.

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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