"O 22 salvou o Brasil”, publicou o senador Flávio Bolsonaro após o jogo ganho pelos brasileiros ao Japão por 2-1. O 22 a que o candidato à presidência se referia era o número da camisa de Martinelli, autor do gol decisivo, mas também o número do seu partido, o Partido Liberal (PL), na urna. Outros membros do PL associaram ainda o passe errado de Danilo na origem do gol japonês ao Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula da Silva, porque o lateral usa o 13 do PT. Sim, no Brasil, a política tenta capitalizar o futebol em ano de Copa. Mas será que consegue?A história, pelo menos a democrática, responde que não. E a ciência política, tende a concordar. Comecemos pela primeira: o Brasil foi campeão do mundo cinco vezes, em 1958, em 1962, em 1970, em 1994 e em 2002. Em quatro delas, todas menos 1970, o país vivia em democracia. “E é na ditadura militar que surge esse debate da exploração do futebol à política porque o regime, liderado então por Emílio Garrastazu Médici, associou o título do Brasil, em 1970, ao momento de crescimento económico do país, sob intenso autoritarismo, a ‘taxas chinesas’”, lembra Vinícius Rodrigues Vieira, politólogo da Fundação Armando Álvares Penteado ao DN Brasil.“Já em 1958, o país vivia, sob a presidência de Juscelino Kubitschek, o período que se convencionou chamar de ‘anos dourados’, marcado pelo otimismo e pela construção de Brasília, e a conquista prestou-se à narrativa de progresso, mas, em 1962, sob João Goulart, o triunfo não impediu que dois anos depois ele fosse derrubado dando início à citada ditadura militar”, completa.Já no atual ciclo democrático, iniciado em 1988, as duas conquistas restantes, em 1994 e, sobretudo, 2002, estimularam mudanças e não a continuidade do regime. O triunfo de 1994, nos EUA, ficou marcado pela ascensão ao poder de Fernando Henrique Cardoso, que marcou o início de um período de modernidade, após os governos de Collor de Mello e de Itamar Franco. “O sucesso do ‘plano real’ e o fim da hiperinflação é que ajudaram a eleger nesse ano Fernando Henrique Cardoso, não o Mundial”, acrescenta Vieira.Nessa perspectiva, 2002 é sintomático: o Brasil foi campeão no Japão e na Coreia do Sul em junho, no final dos oito anos de mandato de Cardoso, mas a euforia não impediu a derrota em outubro do protegido do então presidente, o ministro José Serra, para o opositor Lula da Silva, que marcou uma mudança acentuada de rumo no país. “Ao optar por mudar para Lula mesmo após o penta, o país provou que, em democracia, a teoria marxista de esquerda de que o futebol é o ópio do povo é exagerada”. “No fim das contas, o eleitor sabe distinguir política de futebol, até porque, em 2014, Dilma Rousseff não deixou de ser reeleita mesmo após o fiasco dos 7-1 com a Alemanha, no Mundial organizado no Brasil”, completa o acadêmico. Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!Porém, como nas manifestações de 2015 e 2016 pelo impeachment da presidente o resultado foi usado em cartazes e palavras de ordem, pode estabelecer-se que, num ambiente democrático, as vitórias e derrotas são, com frequência, utilizadas pelos atores políticos - como Flávio, ao associar número de jogadores e de partidos. Mas não têm um reflexo eleitoral evidente, como parecem apontar as pesquisas de opinião que não deixaram de manter Lula na liderança da corrida mesmo após o desaire com a Noruega de Haaland nos oitavos de final. “Ninguém acorda depois de um título e pensa conscientemente ‘o Brasil ganhou, logo vou votar no presidente’”, diz, entretanto, Renata Coelho, especialista em comportamento eleitoral com mestrado na Escola Superior de Propaganda e Marketing, citada pelo portal G1. “Mas pode haver uma transferência emocional que gera um sentimento de satisfação com a situação atual das coisas, inclusivamente com o governo”. E uma derrota pesada pode ter, portanto, efeito contrário. Para os observadores, o campeonato mundial de 2026 também é muito diferente do de 1970. Naquele tempo, o presidente ditador Emílio Garrastazu Médici conseguiu capitalizar o triunfo de Pelé, Rivellino, Jairzinho, Tostão e companhia, usando foto do chamado “rei do futebol” a festejar o tri brasileiro como ilustração para o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” em parte porque a população não tinha muito mais distrações além da bola; hoje, apesar do enorme impacto do Mundial, essas distrações estão mais fragmentadas por força das redes sociais. “Por outro lado”, conclui Vinícius Rodrigues Vieira ao DN Brasil, “é interessante que, desde o penta de 2002, o Brasil deixou de ser um país exportador de produtos industrializados voltou a ter a agricultura como principal fonte econômica e até os jogadores, exportados muito cedo e por isso sem conexão com os clubes brasileiros, tornaram-se eles próprios commodities”. O que lança um futuro debate: o estado da economia e os resultados no futebol têm relação?.Este texto está na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 13 de julho..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Adeus precoce: como Brasil e Portugal caíram abraçados às suas maiores estrelas.“Vamos voltar a ser o grande sonho brasileiro”, diz vice-presidente da CBF .História dos Mundiais. Em 2002, a Família Scolari e Ronaldo devolveram o Brasil ao topo do mundo