Há quase quatro anos como representante do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o embaixador Juliano Nascimento defende que a participação brasileira é essencial para o fortalecimento da organização. Em entrevista ao DN Brasil, o diplomata faz um balanço do momento vivido pela entidade, que completa 30 anos na próxima sexta-feira, 17 de julho.“A participação ativa do Brasil na CPLP é fundamental. Significa não só uma aproximação com Portugal, mas também com os nossos irmãos africanos”, ressalta o diplomata, que já ocupou diversos cargos no exterior ao longo de mais de duas décadas no Itamaraty. O Brasil é responsável por uma série de ações de cooperação técnica na África, como projetos desenvolvidos pela Fiocruz e pela Embrapa nas áreas da saúde e da agricultura, respectivamente.O embaixador avalia que essa cooperação também gera aprendizado para o Brasil. “Por exemplo, em Cabo Verde, que é um país que tem uma deficiência hídrica brutal, são ilhas com muito pouca água potável, você vai ter que ajustar aquele seu projeto para que funcione. Esse ajuste, essas adaptações, são aprendizados. Todas as nossas agências que participam nesse sentido estão ganhando”, afirma..Em Portugal, o trabalho da CPLP ganhou destaque e mais conhecimento das pessoas quando foi lançado o acordo de mobilidade, que ficou conhecido como “visto CPLP”. Na época, houve muita desinformação e ruído sobre o real objetivo do acordo e as pessoas ligavam para o escritório da missão brasileira em Portugal para “pedir o visto CPLP”. O diplomata explica que o acordo tem outros objetivos. “O que a gente quer para a CPLP em algum momento no futuro, se isso for possível, é ter um espaço como temos na América do Sul, em que você viaja com carteira de identidade. Você circula livremente, como os europeus fazem aqui no espaço Schengen, mas nenhum país é obrigado a aceitar, não é um acordo vinculativo. Na época, Portugal reagiu de imediato e reagiu com muita ambição”, lembra. Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!Com a mudança de Governo, em que saiu do poder o Partido Socialista (PS) e entrou a coligação Aliança Democrática (PSD e CDS-PP), as regras mudaram, mas ainda dentro daquilo que é o acordo: redução da burocracia para mobilidade, não eliminação das fronteiras.NegóciosA missão do Brasil junto à CPLP também mantém presença constante em eventos de promoção comercial ao lado da ApexBrasil, que inaugurou um escritório em Lisboa em 2024. “Foi uma escolha estratégica muito importante, muito acertada. Não só pela questão da lusofonia e da possibilidade de projetar a nossa economia e o nosso comércio para os países da CPLP, mas porque, estrategicamente, a gente não tinha a conectividade necessária com a África para levar os produtos brasileiros ou apresentar esse leque da produção brasileira a esses países”, analisa.Na avaliação do embaixador, Portugal funciona como uma “vitrine” para os produtos brasileiros. “Muitos desses países, muitos dos consumidores - estou falando de varejo e atacado - vêm a Portugal para se abastecer. Há representações aqui e uma tradição comercial com uma rede bem estabelecida.”Para Juliano Nascimento, essa estratégia ganha ainda mais importância no cenário internacional atual. “Sobretudo nos dias atuais, com o protecionismo que a gente vive hoje, identificar espaços de comércio, oportunidades comerciais e complementaridades é muito importante para a economia. E ainda temos muito a fazer”, destaca.Nesse contexto, o modelo de atuação da CPLP também representa uma resposta ao cenário mundial. “A polarização é internacional. As sociedades não têm um espaço no meio para dialogar, uma área cinzenta, um espaço de convergência. Na CPLP preservamos esse espaço, porque só atuamos por consenso. Isso nos dá uma projeção de futuro”, reflete.O diplomata acredita que essa é uma das características mais importantes da CPLP ao longo dessas três décadas de atuação e que deve ser preservada. “O processo multilateral é muito interessante. Nós sabemos como sentar para negociar em uma mesa onde, por mais que existam afinidades e proximidades culturais, estamos espalhados por quatro continentes. É um exercício permanente de diálogo em busca do consenso.”amanda.lima@dn.pt.Este texto está na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 13 de julho..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Reconhecimento de diplomas é prioridade, diz embaixador do Brasil em Lisboa.“Oportunidade.” Acordo UE-Mercosul é celebrado por brasileiros em Portugal