Depois de três anos transformando ruas, praças e outros espaços de Arroios em pontos de encontro entre diferentes culturas, o Festival Todos - Caminhada de Culturas se prepara para se despedir de um dos bairros mais multiculturais da capital portuguesa. A 18ª edição acontece entre 10 e 13 de setembro e terá uma presença brasileira especialmente forte, com nomes do teatro, da dança, da performance e da música espalhados pela programação.Um dos principais destaques é a atriz e diretora Lucélia Santos, que leva ao festival o espetáculo Vozes da Floresta - Chico Mendes Vive. A montagem recupera a trajetória e a luta do ambientalista e líder seringueiro assassinado em 1988, tendo como ponto de partida também trechos de uma longa entrevista gravada com Chico Mendes há mais de três décadas. Lucélia divide essa construção com Valdiza Alencar e Cecília Mendes, em uma narrativa conduzida pelas memórias e pelas vozes de três mulheres.A dança brasileira também ganha espaço com Alice Ripoll, que apresenta Puff, trabalho que parte da ideia do "disfarce" como estratégia para transmitir culturas, conhecimentos e tradições que foram silenciados ou obrigados a permanecer escondidos. Já o artista brasileiro Eduardo Ibraim apresenta Aparar Distâncias, experiência itinerante criada especialmente para Arroios. O público percorre a Rua Cavaleiro de Oliveira ao lado dos intérpretes, enquanto sons, moradores, movimentos e situações do próprio bairro passam a integrar a apresentação.Outra criação com participação brasileira é Esta Rua Podia Ter Outro Nome, do Lobby Teatro, Joyce Souza e Arlindo Camacho. Entre performance, teatro e exposição fotográfica, o projeto parte dos nomes das pessoas e das ruas de Arroios para discutir questões como origem, classe social, gênero, migração e pertencimento. Histórias reais servem de inspiração para monólogos apresentados no espaço público, propondo também uma reflexão sobre quem ganha o direito de deixar o próprio nome inscrito na cidade.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!O Brasil aparece ainda entre as diferentes origens dos integrantes dos Terrakota, banda formada por músicos ligados a Portugal, Angola, Cabo Verde, Brasil, Guiné-Bissau e Moçambique. O grupo cruza referências africanas com sonoridades da América Latina, Caribe, Europa e Oriente Médio. .A presença brasileira se estende à Marcha de Todos, que parte do Mercado do Forno do Tijolo e percorre as ruas de Arroios até o Largo do Intendente. Percussões brasileiras estarão entre as manifestações de países como Uruguai, Cabo Verde, Nepal, Índia e China que integram o cortejo.Um festival a serviço da interculturalidadeA escolha por uma programação tão atravessada por diferentes origens está diretamente ligada à história do Todos. Criado em 2009, o festival não foi pensado apenas como uma sequência de espetáculos, mas como uma forma de aproximar as diferentes comunidades que dividem Lisboa. Em entrevista ao DN no ano passado, o diretor Miguel Abreu definiu o projeto como um festival "a serviço da interculturalidade" e explicou que a proposta é criar situações em que pessoas de diferentes culturas possam efetivamente conviver, em vez de apenas ocuparem a mesma cidade.Arroios tornou-se um território especialmente importante para esse trabalho. Brasileiros, indianos, paquistaneses, nepaleses, chineses, portugueses e moradores de muitas outras origens fazem parte de uma freguesia em que a diversidade está presente no cotidiano. Abreu ressaltou ao DN que o Todos não procura apresentar apenas o lado mais harmonioso desse encontro. "Nós não somos um festival de belezas. Procuramos escavar o que possam ser conflitos e tensões, porque acreditamos que é daí que surgem interações mais ricas", afirmou..E depois de três edições consecutivas em Arroios, o festival encerra agora este ciclo. O Todos costuma permanecer três anos em cada território de Lisboa antes de seguir para outra região da cidade. Nesta despedida, a programação presta homenagem às comunidades migrantes que ajudaram a construir a identidade contemporânea da freguesia e propõe reflexões sobre pertencimento, memória e futuro, além de questões concretas do bairro, como os possíveis usos do Mercado do Forno do Tijolo, dos edifícios devolutos e do espaço público.A realização da 18ª edição também ganha um significado particular depois das dúvidas que cercavam o futuro do projeto há um ano. Na entrevista ao DN, Miguel Abreu chegou a admitir que não sabia se o Todos continuaria em 2026 e defendeu que Lisboa deveria ter mais iniciativas dedicadas ao encontro cotidiano entre comunidades. "Não devia haver um Todos, mas uns 15 ou 20 Todos, com outros nomes, a trabalhar estas questões", afirmou na ocasião. A 18ª edição do Festival Todos acontece entre os dias 10 e 13 de setembro, em diferentes espaços de Arroios, em Lisboa. A programação completa, com horários, locais e informações sobre cada atividade, está disponível no site oficial do evento..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Djavan volta a Portugal em 2026 com turnê que celebra 50 anos de carreira.Gilberto Gil e relação entre Brasil e Portugal. "Nos queremos cada vez mais, de forma cada vez mais profunda"