Arlete de Amorim vive em Portugal desde janeiro de 2020.
Arlete de Amorim vive em Portugal desde janeiro de 2020.Foto: DR

Escritora brasileira radicada em Portugal lança livro sobre luto, imigração e memória

Obra "O Mar por Dentro", de Arlete de Amorim, está à venda nas principais livrarias. A publicação, que é independente, também está no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal.
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Algumas sensações nos transportam imediatamente para casa: o cheiro do café passado, de uma flor, da roupa que secou ao sol ou de terra molhada. Para a escritora brasileira Arlete de Amorim, o de terra molhada é o mais afetivo, mesmo quatro décadas depois de deixar o Brasil.

"Ainda hoje, quarenta anos e dois países depois, o cheiro de terra molhada depois da chuva me devolve inteira a uma manhã de infância. Não só é lembrança, é também e sobretudo, o corpo reconhecendo", diz em entrevista ao DN Brasil.

Esta é uma das muitas memórias da escritora brasileira, que lançou o livro O Mar por Dentro. A obra, publicada de forma independente, reúne contos e memórias que têm a água como fio condutor. A brasileira mora em Portugal desde 2020 e, depois de Lisboa, fixou residência em Coimbra. Antes, morou mais de três décadas em Milão, na Itália.

A vinda para Portugal devolveu muitas coisas, conta. Havia perdido o marido, e a cidade italiana estava "impraticável" diante de tantas lembranças com o amor de sua vida. Mas a mudança também representou a volta ao seu idioma natal. "Eu queria voltar a viver em português (...) Portugal me devolveu isso", relata.

Coimbra também devolveu o rio, o Mondego. Foi quando voltou a ver a água como um fio condutor da vida. O livro não nasceu de uma ideia, mas sim de um "reconhecimento" da vida. Só percebeu isso quando reuniu várias anotações que fez ao longo dos anos.

"Quando finalmente os reuni sobre a mesa para ver o que tinha nas mãos, percebi uma coisa que me deu um susto: em quase todos havia água. Rio, mar, chuva, piscina, uma lembrança de água", destaca. "Eu não tinha decidido aquilo. Era o que eu era, aparecendo à minha revelia", complementa.

Inspirações

Segundo a autora, o livro é uma espécie de autobiografia e traz histórias de várias mulheres importantes em sua vida. "Algumas dessas mulheres têm coisas minhas, outras têm coisas de amigas, outras são inteiramente inventadas, e as inventadas, às vezes, são as que mais me pertencem", pontua.

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Mesmo com adversidades e lutos, continuam vivendo. "São mulheres que sofreram perdas reais e que não se transformaram em vítimas nem em heroínas, duas saídas fáceis que eu quis evitar. Elas continuam. Fazem o café, atravessam o inverno, entram na água", detalha.

O livro é dedicado a Clarice Lispector, Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles, porque "cada uma ensinou uma coisa diferente". O ensinamento de Clarice foi "que o acontecimento pode ser mínimo e o abalo, enorme".

Nélida Piñon ensinou "contrário e o complemento: a amplitude". Já Lygia Fagundes Telles mostrou "a precisão e a crueldade elegante, a frase que corta sem levantar a voz, e a capacidade de olhar de frente para o envelhecimento".

Há ainda um ensinamento conjunto. "As três juntas me ensinaram a coisa maior: que existe um lugar. Que uma mulher brasileira escrevendo não é uma exceção simpática, é uma tradição. Elas acenderam esse fogo numa época em que era muito mais caro fazê-lo. Dedicar o livro a elas é dizer que recebi, e que estou passando adiante", explica.

A autora também reflete nos contos sobre a imigração, com um toque autobiográfico. "Aquele momento em que uma pessoa entende que não vai voltar", ressalta. Ao mudar para a Itália, pensava que seria passageiro. "Passei muito tempo achando que estava de passagem pela Itália. Um dia percebi que tinha construído ali uma vida inteira. É lento, é feito de pequenas humilhações administrativas e de saudades que chegam nas horas erradas. Recomeçar longe de casa não é heroico", sintetiza.

Sobre a repercussão da obra, tem um desejo. "Que uma leitora que me escreva dizendo que reconheceu ali alguma coisa que ela nunca tinha conseguido nomear. Um livro não termina quando o autor o acaba. Termina quando alguém o lê".

O livro está à venda nas principais livrarias e plataformas de e-books e audiobooks. Ou, em outro lugar ainda mais especial: no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal.

amanda.lima@dn.pt

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