“Passei a desenvolver muitas das histórias dentro dos vagões para guardar aquela emoção do momento inicial, e o livro foi tomando forma".
“Passei a desenvolver muitas das histórias dentro dos vagões para guardar aquela emoção do momento inicial, e o livro foi tomando forma".Foto: DR

Escritora brasileira lança livro que transforma o cotidiano do metro de Lisboa em literatura

"A vida alheia", publicado pela editora Urutau, é a mais nova obra da escritora cearense Cristina Fontenele.
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Há quem atravesse o metro de Lisboa apenas para chegar ao destino. A brasileira Cristina Fontenele tem mais um objetivo: observar. Entre uma estação e outra, recolhe conversas interrompidas, olhares cansados, reencontros improváveis, silêncios, despedidas e pequenos gestos que quase ninguém percebe. Foi desse exercício de observar a vida em movimento que nasceu A vida alheia (editora Urutau), livro de crônicas em que a escritora brasileira radicada em Portugal transforma os vagões da capital portuguesa em um retrato da experiência humana.

Ao DN Brasil, Cristina conta que tudo começou em 2019, quando passou a registrar episódios que chamavam sua atenção durante os deslocamentos diários. "Enquanto cronista, tenho o hábito de observar o cotidiano e anotar situações que despertam minha atenção, independente do ambiente. A vida é um material muito rico para a escrita", conta a cronista, que escreve quinzenalmente neste jornal.

Com o tempo, as anotações começaram a ser algo a mais. “Passei a desenvolver muitas das histórias dentro dos vagões para guardar aquela emoção do momento inicial, e o livro foi tomando forma. Ia apontando minhas reflexões, curiosidades, inquietações. Depois viria a reescrita, pesquisa, leitura crítica, edição. O processo natural da obra literária”, detalha. A obra teve a escritora Vanessa Passos como orientadora de escrita e assina o texto da orelha.

No total, são 30 crônicas e todas partiram de situações reais. “Tem a crônica da avó com a neta que me trouxe muitas memórias de infância e na qual incluí conselhos que amigos ouviram de suas avós. Também há crônicas que repercutem momentos de violência, em um dos quais meu corpo tremeu de medo”, destaca.

Um tema bastante presença na obra é o comportamento das pessoas no transporte, num mundo tomado pelos dispositivos móveis. “Buscamos preencher essas lacunas e entramos no automático. Só contemplar, aquietar a mente pode ser incômodo. Quase todos estão com os olhos nas telas, com fones e, alguns, com livros, o que é um ânimo”, reflete. Para a obra, Cristina conta que começou a “treinar um olhar mais livre, sem dispositivos, para entrar no modo observação”. E o resultado foi positivo: “senti que essa simples decisão afetou positivamente meu humor e qualidade de presença”.

Segundo a imigrante, nascida no Ceará, a condição de uma pessoa que mudou de país molda o olhar. “Ser imigrante expandiu meu olhar sobre o outro e sobre o contexto vivido. Movida pela curiosidade, pelo contato com a diferença, passei a ser ainda mais observadora, procurando entender como as pessoas ocupam e transitam pelos lugares”, afirma.

Morando na capital portuguesa desde 2018, a escritora afirma que continua com o mesmo interesse pela observação da cidade e outras obras podem surgir. “Há alguns meses, mudei de morada e, desde então, tenho usado mais os autocarros. Percebo outras dinâmicas nesse tipo de transporte e já estou com várias anotações. Já vivi episódios que valem texto”, destaca.

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E ao DN Brasil já adianta alguns destes episódios. “Há umas semanas, ajudei uma senhorinha a caminhar dois quarteirões para chegar à hora marcada no banco. Ela disse gostar muito das brasileiras. As mudanças nos convocam a novas perspectivas e fomentar a curiosidade, o encantamento passa também por uma escolha pessoal. Quando a gente perde esse viço, o entorno fica pálido, sem estímulo”, reflete.

Sobre a expectativa de como o livro será recebido, Cris está otimista. “Espero que as pessoas se conectem com as histórias contadas, pois os temas são da vida alheia, mas retratam a nossa vida comum. Proponho reflexões e vou fazendo algumas perguntas pelos textos, questionando o valor do tempo, o limite da espera, o destino das coisas, a forma como interagimos com a multiculturalidade e com a diferença, se estamos dispostos a desacelerar”, detalha.

A vida alheia é publicado pela editora brasileira Urutau. “Estou muito feliz em levar o livro para o mundo pela Urutau, editora que publica tanto em Portugal quanto no Brasil. Ela faz um trabalho importante para escritores que têm público em ambos os países”, pontua. A obra já está em pré-venda online no site da editora e o lançamento está previsto para o outono.

amanda.lima@dn.pt

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