Deborah Trois vive em Braga e esteia seu primeiro romance.
Deborah Trois vive em Braga e esteia seu primeiro romance.Foto: DR

Brasileira descobre ser descendente de bibliotecário de D. João VI e transforma história familiar em livro

"O Segredo de Marrocos" será lançado esta semana, na Feira do Livro do Porto.
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Uma pesquisa sobre as próprias origens levou Deborah Trois, brasileira de Niterói que vive em Braga, a uma descoberta que atravessa mais de dois séculos de história entre Brasil e Portugal. A imigrante descobriu ser descendente direta de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, bibliotecário real que acompanhou D. João VI na transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808.

Esta descoberta deu origem ao primeiro romance da autora, intitulado O Segredo de Marrocos. A obra será lançada na sexta-feira, dia 21 de agosto, durante a Feira do Livro do Porto. A editora é a Cordel D'Prata.

Ao DN Brasil, a carioca conta que trabalhou durante anos com números antes de transformar a curiosidade pelos arquivos em uma investigação sobre a própria família. Formada em Ciências Contábeis, encontrou na genealogia um hobby que a levou à descoberta. “Usei a mesma disciplina que aprendi na contabilidade: verificar cada fonte, cruzar cada dado, para reconstruir vidas em vez de balanços”, relata.

A pesquisa começou há 11 anos, quando Deborah decidiu investigar a própria ascendência. A brasileira mora em Portugal desde 2020 e só depois de se instalar percebeu que Braga fica na região de onde a família de Luiz Joaquim é originária.

A contadora foi cruzando registros paroquiais e civis até chegar a Luiz Joaquim dos Santos Marrocos. Para quem pesquisa o período joanino, o nome é familiar. O bibliotecário real acompanhou a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e levou na bagagem dezenas de caixotes de manuscritos. Do Brasil, manteve durante anos uma correspondência com o pai.

Ao todo, foram 186 cartas, hoje utilizadas como fonte por autores como Lilia Schwarcz e Laurentino Gomes, no aclamado livro 1808. As cartas mostravam “o cotidiano que os livros de história costumam pular. O calor, a espera por notícias de Lisboa, os cupins destruindo manuscritos, a lentidão da adaptação”.

É a partir dessas cartas que Deborah constrói parte da narrativa de O Segredo de Marrocos. “O livro nasceu da necessidade de contar isso de um jeito que a genealogia sozinha não permite”, destaca. “Eu quis trabalhar também o que ele não escreveu, e o que ficou depois que ele parou de escrever”, complementa.

Capa do romance de estreia da brasileira.
Capa do romance de estreia da brasileira.Foto: DR

"Peso emocional"

Hoje, a carioca vive a poucos quilômetros de onde a família de Marrocos partiu há mais de dois séculos. “É uma coincidência com peso emocional real e isso muda a forma como leio cada carta”, define.

A brasileira afirma ter uma expectativa “realista” sobre o lançamento da obra. “É um livro de estreia, de uma autora sem nome de mercado, sobre um personagem que a maioria dos leitores nunca ouviu mencionar. Minha intenção foi aproximar o arquivo do leitor, tornando-o mais literário, e que quem gosta de histórias de família encontre nele algo que reconheça como verdadeiro”, diz.

Por fim, tira lições de todo esse caminho, que remonta a gerações. “Laurentino Gomes escreveu que, quando Marrocos morreu, morreu com ele um pedaço de Portugal que tinha atravessado o Atlântico. A vida mostra que não é bem assim. Tudo se transforma, e o destino tem uma forma própria de equilibrar a balança”.

Depois do lançamento o livro estará disponível para venda na Cordel de Prata e nas livrarias. No Brasil, o lançamento está previsto para setembro e/ou outubro por outra editora.

amanda.lima@dn.pt

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