"Há uma minoria de professores xenófobos e racistas que se aproveita dessa fraqueza infantil e são gigantes diante das crianças"-
"Há uma minoria de professores xenófobos e racistas que se aproveita dessa fraqueza infantil e são gigantes diante das crianças"-Foto: Líbia Fiorentino

Escritor Álvaro Filho. “Luta de Portugal em preservar o idioma é uma batalha perdida”

O escritor e jornalista Álvaro Filho lançou recentemente um livro de crônicas chamado "Eu não falo brasileiro". O DN Brasil conversou com o imigrante sobre o livro e o momento que o país vive.
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O livro de crônicas Eu não falo brasileiro, de Álvaro Filho, foi lançado recentemente pela Urutau. O DN Brasil conversou com o autor pernambucano radicado em Lisboa, que já tem mais projetos literários em andamento.

Qual a crônica que o marcou?

Três delas acho que resumem bem o conteúdo: a primeira, sobre um vizinho “indiano” que tive, o Omar Sharif, assim mesmo, como o ator, embora ele não tivesse nunca visto um filme dele. Essa crônica venceu um prêmio nacional em Portugal, mesmo escrita com o sotaque brasileiro, o que considero uma vitória do português-brasileiro e que, por sua vez, dialoga com outro texto que fecha e dá título ao livro. A terceiro é sobre o bullying que meu filho tem sofrido na escola e fala sobre uma professora que implicava com o jeito dele falar.

Como vê o momento da imigração em Portugal?

Portugal embarcou tardiamente na onda xenófoba europeia. Chegou tarde, como costuma chegar em tudo, mas chegou, e parece querer compensar esse atraso atávico português tentando, já que não conseguiu ser o primeiro, ser o mais xenófobo de todos. E vai pagar muito caro o preço desse erro, pois Portugal não é a Alemanha, não é a Itália, não é a França, não é o Reino Unido, para bancar economicamente o peso de abdicar não só da mão de obra imigrante, da contribuição tributária e da segurança social, mas de outras tantas riquezas que os imigrantes são capazes de gerar para o país. Como diria Millor, Portugal tem um grande passado pela frente.

E o preconceito linguístico, que de certa forma dá nome ao livro?

Essa luta dos portugueses em “preservar” o idioma é uma batalha perdida. É perdida não só pelos 200 milhões de falantes brasileiros, mas porque até o fim do século serão outros 200 milhões de falantes na África e num contexto de cerca de meio bilhão de falantes de português no mundo, Portugal terá 10 milhões deles, se tiver. Em pouco tempo, será como aquelas discussões entre dois adultos em que uma criança tenta se meter. É aceitar isso, que dói menos. Como toda batalha perdida, a alternativa é apelar, é baixar o nível, é o desespero. É o que acontece em relação às crianças brasileiras, que como toda criança não tem capacidade de se defender. É importante não generalizar pois a imensa maioria no sistema de educação português é de profissionais decentes e acolhedores, mas há uma minoria de professores xenófobos e racistas que se aproveita dessa fraqueza infantil e são gigantes diante das crianças, mas, como qualquer covarde, diminuem de tamanho, ficam minúsculos, quando um adulto entra na sala. Meu filho menor sofreu diversos episódios de bullying na escola, não só dos colegas, mas dos professores. E sempre que fui lá - e não foram poucas vezes - para falar com esses professores tinha que usar um microscópio para os enxergar.

Na entrevista de lançamentodo livro anterior, disse que teve muita dificuldade em conseguir uma editora para publicar em Portugal. Esse problema continua?

Depois do jornalismo, onde o português do Brasil não é mais uma questão como foi durante décadas - e não só nas redações ponto-br, mas também nas portuguesas -, o ramo editorial é o último bastião de resistência à nossa vertente do idioma no setor que tem a palavra como ferramenta. O que é estranho, pois o meio dos livros aparentemente é vanguardista e intelectualizado, mas na prática parece ser só na aparência. Continua fechado, limitado, escudado pelo mito de que “escritor brasileiro não vende”, o que pode até ser verdade, mas graças a uma limitação de visão editorial. Culturalmente, as editoras portuguesas publicam os best-sellers no Brasil, best-sellers lá pois tratam dos temas caros aos brasileiros - a violência urbana, as questões rurais, o racismo e o machismo estrutural. Temas que, apesar de universais, quando tratados pelo olhar brasileiro talvez não interessem aos leitores de cá, o que impactaria os números dos escritores brasileiros. É como se a literatura brasileira ainda hoje funcionasse para perpetuar o correio de Pero Vaz de Caminha sobre a colônia, às vezes bela, às vezes exótica e sempre perigosa. Agora, temos em Portugal dezenas, talvez centenas, de escritores capazes de dialogar com as questões da realidade portuguesa, capazes de escrever sobre temas que os portugueses se interessariam, mas quando esses autores - e aí me incluo - batem na porta de uma editora portuguesa, ouve o famoso “desculpe lá, mas escritor brasileiro não vende”.

Você descreveu em uma das crônicas a xenofobia contra um dos seus filhos. Vê com preocupação que as crianças estejam sendo vítimas nas escolas?

Esses episódios de bullying nas escolas, infelizmente, vão continuar a acontecer até que o discurso dos governantes mude. Quando em pleno parlamento português é permitido tripudiar das minorias, acende-se um sinal verde para que se faça o mesmo em todas as estruturas do poder público, no balcão dos serviços, nas forças de segurança e, claro, nas escolas. Cabe aos serviços consulares fazer a sua parte, como o Consulado do Brasil anunciou recentemente que fará com uma interessante ação nas escolas. Cabe também a cada um de nós, pais ou não, continuar a lutar, a alertar, a protestar. Sabe, temos agora uma massa de imigração brasileira mais consciente dos seus direitos e mais capaz de se articular, de furar os bloqueios. De chegar onde se deve chegar e nunca antes foi possível chegar, seja no cinema, na música, nas artes plásticas e também na literatura. Temos excelentes advogados, e, especialmente, excelentes jornalistas brasileiros. Esse contingente está atento e deve continuar assim.

amanda.lima@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do DN desta segunda-feira, 23 de março de 2026.
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