Ana é psicóloga e já teve atuação em grupos sociais quando morava no Rio de Janeiro.
Ana é psicóloga e já teve atuação em grupos sociais quando morava no Rio de Janeiro.Foto: Leonardo Negrão

Acolhimento e escuta: psicóloga brasileira cria grupo de apoio para mulheres em Lisboa

Grupo Travessia terá encontros quinzenais, sempre às quintas-feiras, a partir das 19h30. Local é o café Pacová, nas Laranjeiras.
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Um espaço para ser ouvida, sem julgamentos, desabafar e criar redes de apoio: nasce nesta quinta-feira, 15 de janeiro, o grupo Travessia, criado pela psicóloga brasileira Ana Dunlop. A profissional vai conduzir a conversa com técnicas terapêuticas para que a travessia da vida das mulheres seja mais leve.

Em entrevista ao DN Brasil, a psicóloga conta que a criação de um grupo é um desejo antigo. Especializada em psicologia social, a imigrante já trabalhou com grupos quando ainda morava no Rio de Janeiro. A mudança para Portugal, no entanto, a levou para o atendimento individual com psicologia clínica, mas o desejo permaneceu.

"O Travessia nasce justamente desse desejo de criar um lugar de acolhimento. Um espaço onde mulheres, cis e trans, imigrantes ou portuguesas, de diferentes origens, raças e condições sociais, possam falar das suas dores. Ou simplesmente existir nelas", conta ao jornal. Segundo Ana, as mulheres "não têm muitos espaços para falar". E quando falam, são silenciadas.

Com o atendimento clínico que realiza, a maioria das suas pacientes são mulheres. E a maioria também possui dores semelhantes. "As mulheres que carregam dores semelhantes, muitas vezes vividas em silêncio, com muitas dificuldades no ser mulher", explica.

A imigrante acredita que este é o momento certo para a criação do grupo, diante do cenário da imigração em Portugal. "Em um contexto de imigração cada vez mais hostil, aumento do custo de vida, mudanças nas leis e instabilidade social, o cansaço coletivo se intensifica. Para mulheres imigrantes, esse peso costuma ser ainda maior, com mães solo, mulheres trans, a dificuldades para alugar uma casa, conseguir trabalho ou serem ouvidas em instituições básicas como escolas e serviços de saúde", reflete a psicóloga.

O projeto também atravessa uma experiência pessoal recente da psicóloga: um diagnóstico e tratamento de câncer de mama. Em meio ao tratamento, longe do Brasil, Ana sentiu na própria pele a necessidade de um espaço de vulnerabilidade. "Um lugar onde eu pudesse ser acolhida enquanto mulher, um contexto em que, muitas vezes, a escuta feminina é mediada por estruturas masculinas, até mesmo na medicina. Senti isso no meu tratamento do câncer de mama, que é algo tão nosso, de nós mulheres", conta.

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No entanto, o grupo Travessia não é somente para mulheres imigrantes: todas são bem-vindas, afirma a brasileira. “Antes de qualquer coisa, somos mulheres. E precisamos todas dessa rede de apoio", ressalta. A profissional alerta para os altos índices de violência de gênero no país como outro fator de impulso para a atividade. A atividade é também aberta para todas as pessoas que se identificam como mulheres.

"Um espaço seguro e sem julgamentos"

A dinâmica dos encontros é baseada na escuta. Enquanto psicóloga, Ana vai conduzir a conversa e aplicar técnicas terapêuticas, mas ressalta que não se trata de psicoterapia. “Não é psicoterapia. É um espaço terapêutico, um respiro, um lugar para tirar o peso do peito, pra sair desse sufoco que vivemos", pontua.

Nas conversas, as mulheres terão "um espaço seguro e sem julgamentos". O objetivo é que cada mulher possa se expressar sem ser interrompida, acolhida pelas outras e, se quiser, simplesmente chorar para aliviar as emoções. Os encontros quinzenais, sempre às quintas-feiras, a partir das 19h30. O local é o café Pacová, nas Laranjeiras, um espaço criado por uma brasileira e que Ana considera "seguro e aconchegante" para a iniciativa.

Com encontros quinzenais, o objetivo é "não carregar demais" o tempo das mulheres, que já vivem sobrecarregadas com o trabalho remunerado e o doméstico. A psicóloga reforça que a "a fala é muito curativa" e reforça que seja feito um esforço para participar, garantindo que sairão "mais leves" dos encontros.

“Quando várias mulheres carregam juntas, a travessia fica mais leve”, resume Ana. Os encontros terão uma contribuição de dois euros, para manutenção do projeto. É possível fazer a inscrição neste link, mas também é possível ir sem a inscrição prévia.

amanda.lima@dn.pt

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