"A felicidade é vista como possível só quando a pessoa tiver tal coisa", explica.
"A felicidade é vista como possível só quando a pessoa tiver tal coisa", explica.Foto: Facebook

Vera Iaconelli: “As redes sociais vendem um mundo impossível de alcançar”

Psicanalista esteve em Portugal para falar das suas obras, como Felicidade ordinária (2024) e Análise — Notas do divã (2025).
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As redes sociais alimentam a ilusão de uma vida de luxo e felicidade permanente, criando expectativas que nem todos conseguem alcançar — e descontando essa frustração nas urnas. A análise é da psicanalista Vera Iaconelli, que esteve em Portugal para apresentar seus livros.

Em entrevista ao DN Brasil em Óbidos, durante o festival Fólio, a psicanalista, autora de Felicidade ordinária (2024), alerta que o consumo deixou de ser apenas uma questão material para se tornar uma forma de reconhecimento social: ter produtos caros e exibir determinadas experiências passou a ser, para muitos, uma maneira de provar o próprio valor. O resultado é uma insatisfação constante, agravada pela comparação com realidades cuidadosamente editadas nas plataformas digitais.

O efeito é um impulso ao consumo desenfreado e a frustração por não conseguir ter tudo. "Isso cria uma insatisfação permanente, que nenhum governo vai conseguir entregar, mas que existem, até por má fé, certos grupos que prometem que isso vai ser entregue. Tem uma promessa, não de um bem-estar social para todos, mas de um bem de consumo que vai te botar no mapa do mundo, né? É uma distorção que está sendo muito explorada pela ultradireita e as redes sociais potencializam isso", reflete a apresentadora do podcast Isso não é uma sessão de análise.

Segundo a especialista, esse estilo de vida divulgado por muitos influenciadores adoece as pessoas. "Essas imagens têm um efeito deprimente sobre quem consome, porque são só os melhores momentos. Mesmo quando publicam um perrengue, é por humor, para ganhar um like", relata.

O tema é recorrente nas sessões, conta. "As pessoas levam a ideia de que elas estão perdendo alguma coisa, que não sabem exatamente o que é, que a vida do outro é feliz e a sua vida não é", diz. "A felicidade é vista como possível só quando a pessoa tiver tal coisa, seja a casa, o marido, qualquer coisa que está prometida em algum lugar, ao invés de entender que a felicidade é o que você vive nesse momento agora, episodicamente", explica.

A psicanalista cita Freud, que, há décadas, já refletia sobre a felicidade. "A gente é felizinho. O Freud vai dizer que a promessa do fim de uma análise é a infelicidade ordinária. É sair dos grandes sintomas, dos grandes sofrimentos e levar a vidinha", pontua.

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E isso é exatamente o oposto do que é difundido nas redes sociais. "A vida comum é a vida que não serve, né? A vida que só serve aquela cheia de luxos e grandes acontecimentos. É como a lógica das bets, né? Eu vou jogar, jogar, porque vai chegar a hora do grande prêmio, que é o tempo de vida que está passando", compara. Vera Iaconelli celebrou a recente proibição das apostas pelo presidente Lula.

Outro tema recorrente nas sessões é a preocupação de pais e mães com o uso das redes sociais por crianças e adolescentes. "Um primeiro problema é que os adultos também estão viciados nas redes sociais. Depois, ficam com medo que os filhos fiquem de fora, porque o filho do outro vai ter e o meu não", reflete. Vera afirma que é chamada com bastante frequência por empresas para conversar com profissionais sobre esse tema.

A psicanalista defende que é necessária mais regulação, pelo bem dos adultos e das crianças. "É importante pressionar os Estados para aumentar a regulação e se conscientizar de que a regulação é importante, para que a gente possa fazer um circuito que passe pela sociedade civil, pelo Estado, pelas empresas, pelas escolas. Isso daí vai ter que ser resolvido em grupo, coletivamente", pontua. Vera participou de várias sessões do festival Fólio, em Óbidos, e de uma conversa na Livraria da Travessa.

amanda.lima@dn.pt

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