Equipe do Paladinos CF, de Évora.
Equipe do Paladinos CF, de Évora.Foto: DR

Paladinos CF: Brasileiros fundam clube para unir imigrantes pelo futebol no interior de Portugal

Criado por Jackson Santos e Rian Abreu, o Paladinos nasceu em Évora, no Alentejo, reúne atletas de cinco nacionalidades e sonha em chegar ao futebol profissional em Portugal.
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Muralhas romanas, uma capela de ossos, uma universidade famosa e dois clubes de futebol históricos (o Juventude e o Lusitano) que há décadas dividem a cidade entre si, são algumas das principais características de Évora, capital do Alentejo que, se depender de dois brasileiros, terá nos próximos anos uma nova referência futebolística para chamar de sua. Pelo menos esse é o objetivo do paulista Jackson Santos e do capixaba Rian Abreu, que, em 2025, criaram um novo projeto focado na comunidade imigrante apaixonada por futebol na cidade alentejana: o Paladinos CF.

"Todo mundo que morava em Évora tinha que jogar em algum time ao redor da cidade. Na Liga Inatel [campeonato amador], não tinha nenhum time. A partir daí surgiu uma ideia nossa, até brincando, conversando no trabalho, de criar um time da cidade. E a gente decidiu levar essa ideia a sério", conta Jackson, um dos fundadores do Paladinos CF, ao DN Brasil. Menos de um ano depois do primeiro jogo oficial, o projeto já movimenta jovens aos fins de semana, chama atenção nas redes sociais e começa a ser visto como um projeto de integração para imigrantes no coração do Alentejo.

Em Portugal há pouco mais de quatro anos, Jackson trabalha como analista de logística na Aernnova - antiga unidade da Embraer em Évora - e antes de fundar o clube jogou futebol na região. Rian, cofundador e diretor, também tinha passagem por equipes da Liga Inatel e foi justamente essa experiência nos campos alentejanos que acendeu a vontade de criar algo próprio.

Os sócios Jackson e Rian fundaram o clube de Évora.
Os sócios Jackson e Rian fundaram o clube de Évora.Foto: DR.

A proposta era criar um clube amador que representasse Évora e acolhesse jogadores que, como eles, enxergavam no futebol uma forma de pertencimento longe de casa. O Paladinos nasceu inspirado em parte no Ousadia Alegria, projeto espanhol formado por brasileiros, mas logo ganhou identidade própria. Em vez de reunir só atletas do Brasil, passou a juntar portugueses, brasileiros, cabo-verdianos, angolanos e são-tomenses num mesmo vestiário. O nome também não foi escolhido por acaso.

"Eu queria refletir essa ideia de soldados, guerreiros, fiéis, batalhadores, que não trocam de camisa por nada. Antigamente, quando um rei mandava vários exércitos para resolver problemas e ninguém resolvia, por fim chamavam os paladinos, que eram como uma tropa de elite", explica Jackson. Havia ainda toda uma estratégia digital ao redor do nome: ao pesquisar o termo, percebeu que o clube poderia se destacar com facilidade nas buscas e nas redes sociais, afinal não havia "concorrência" na área.

Do princípio das conversas até o até o primeiro jogo, no entanto, o caminho exigiu paciência. Foram meses de burocracia - de fevereiro a agosto de 2025 - para constituir formalmente o clube, com estatuto próprio, assembleia geral, tesouraria e diretoria com nove pessoas.

"Quem é brasileiro, vai entender: montar um time é tão complicado quanto tirar um documento português. Vai em um lugar e tira um documento, vai em outro e tira outro, cria o estatuto, busca o papel, vai em outro órgão, assim por diante", afirma.

A estreia oficial aconteceu no dia 11 de outubro de 2025, na Liga Inatel de Évora. O brasileiro conta que o começo dentro de campo foi difícil - o time venceu na primeira rodada, mas depois ficou quase metade da época sem repetir o resultado, perdendo a maioria dos jogos por apenas um gol de diferença. "O time jogava bem, mas perdia por falta de maturidade na hora de jogar. Quando virou a chave, conseguimos terminar os últimos sete jogos com apenas uma derrota, dois empates e quatro vitórias", lembra Jackson.

Fora de campo, o crescimento foi mais rápido do que os fundadores esperavam. O clube viralizou no Instagram rapidamente, passou dos cinco mil seguidores nas redes sociais - número expressivo para um projeto amador recém-criado numa cidade do interior alentejano - e Jackson passou a receber mensagens não só de brasileiros em Portugal, mas também de pessoas no Brasil, em países africanos e nos Estados Unidos.

A estratégia digital virou uma das marcas do Paladinos: os lances dos jogos são gravados e publicados com linguagem jovem, próxima do futebol de várzea e das resenhas de arquibancada. O resultado foi uma aproximação com toda comunidade local, especialmente entre os mais novos.

"Como eu gravo os jogos de uma maneira mais dinâmica, com uma linguagem mais jovial, até os outros times e jogadores pedem para a gente continuar fazendo, porque querem ver os vídeos. Tem time que chama a gente para amistoso já pensando que vamos gravar e publicar", conta Jackson. A visibilidade inclusive chegou à diretora da Liga Inatel de Évora, que reconheceu publicamente o que o Paladinos trouxe à competição e confirmou querer contar com o clube na próxima época.

No quesito financeiro, toda a estrutura do clube sai do bolso de Jackson e Rian. Os patrocinadores existem, mas representam menos de 10% do total investido desde a fundação, com o restante sendo bancado pelos dois. Os jogadores não pagam para atuar e, sempre que possível, recebem ajuda de custo para deslocamento e lanche nos dias de jogo. "O time é quase 100% meu e do meu sócio. Todo o dinheiro que entrou foi meu e dele. Não temos ajuda da Câmara nem de nenhum órgão público. A única obrigação do jogador é jogar: se divertir e jogar", resume Jackson.

Com o crescimento da visibilidade, chegaram aproximações de empresas interessadas em patrocinar e de empresários que querem associar jogadores ao clube para gerar material audiovisual e abrir caminho para transferências. Para a próxima temporada, Jackson afirma que há também conversas em andamento com a Câmara Municipal para que o Paladinos passe a usar um complexo esportivo local como campo próprio.

Atletas do Paladinos CF.
Atletas do Paladinos CF.Foto: DR

Para o brasileiro, o impacto mais concreto do clube, porém, é o que acontece fora do campo e longe das câmeras e sim as relações criadas no clube que ultrapassam o futebol: jogadores que se conheceram no trabalho passaram a jogar juntos, e atletas que chegaram ao time depois encontraram oportunidades profissionais por meio de colegas. Jackson cita o caso de um jogador angolano que criou uma amizade tão próxima com um brasileiro do elenco que o levou para passar férias em Angola, na casa de sua família. "Isso mostra a conexão que o futebol gerou. As raízes dele permitem criar conexões com as pessoas de uma maneira que ajuda a matar um pouco da saudade daquilo que a gente vive no nosso país", diz.

Para o futuro, o plano tem duas etapas. A médio prazo, entrar na Distrital de Évora, federar jogadores e disputar uma competição mais estruturada. A longo prazo, transformar o Paladinos num clube profissional - e, na gaveta, há um sonho maior ainda: o de poder realizar o sonho de quem pretende um dia jogar futebol na Europa.

"A gente quer tornar o nosso time tão grande que possa criar um conteúdo na internet capaz de olhar para uma pessoa aleatória que joga futebol no Brasil ou na África e dar um contrato profissional na mão dela. Sabe quando a gente é moleque e pensa: podia alguém bater na minha porta agora e me fazer ter um contrato profissional? A longo prazo, queremos fazer isso", projeta Jackson.

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 18 de maio de 2026.
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