Para além da contagem de anos

Publicado a

Mantas estendidas na grama, leque, chapéu, sorvete. Água, muita água. Promoção “leve 4, pague 3”, hora do conto, prosa, poesia, 25 de abril. Palavras em português, francês, espanhol, inglês ecoando em meio ao cheiro de waffles e pizza. Chegou uma das épocas mais esperadas do ano, pelo menos para os apaixonados por Literatura. 

A 96º edição da Feira do Livro de Lisboa iniciou com números expressivos em diversidade de eventos, pavilhões e editoras. O Parque Eduardo VII torna-se, até 14 de junho, um lugar de fantasia, memória, ficção e criatividade acontecendo em pleno. Ponto de encontro de várias idades e estilos, sendo palco, sobretudo, para o diálogo e a interculturalidade. 

São dezenove dias bonitos de ver jovens e suas pilhas de livros, crianças encantadas ao folhear páginas, pais empurrando carrinhos de bebê e passeando com os cães na trela, em um malabarismo de energia e atenção. Senhoras e senhores caminhando entre os stands, adolescentes em momentos cosplay, tietagem, filas para autógrafos, lançamento de livros e aquela emoção do autor em testemunhar sua obra ganhando o mundo, cativando leitores. 

Sotaques diferentes compondo mesas nas praças de debates, convidando à reflexão, a pensar o mundo. Um movimento sempre de coragem quando a voz expressa temas de estudo, anos de dedicação, ideias além do convencional. É rico e urgente aprofundar conversas, expor pensamentos, deitar cá para fora a poesia que pulsa no corpo. 

Entre tantas iniciativas, participei de um piquenique literário promovido por uma autora portuguesa, que escreveu um romance inspirado em fatos reais a partir da relação entre uma neta e a avó. O bate-papo incluiu uma médica geriatra e foi moderado por uma famosa booktok

A história do livro parte da morte do avô, episódio que impulsiona a neta a levar a avó para morar consigo em outro país, a despeito da oposição familiar. A decisão traz impactos na convivência de ambas, inverte os papéis e impõe uma nova realidade cercada por cuidados geriátricos, conflitos e descobertas.

A temática sensibilizou a plateia que compartilhou também as próprias vivências sobre cuidado, envelhecimento e luto. “A noção de finitude é a melhor coisa que podemos ter para sermos o melhor que pudermos todos os dias”, desabafou uma das ouvintes. “O luto não precisa ser tão agreste”, disse emocionada outra participante.

“Envelhecer é um privilégio. Por isso, temos que planejar e pensar hoje sobre nossas escolhas”, destacou a geriatra. Segundo ela, a longevidade é impactada pelo exercício físico e mental, pelo que comemos e, principalmente, pelas relações - as conexões com as pessoas são fundamentais. Estamos vivendo mais, porém ainda sem usufruir desses anos extras com a devida qualidade.

A médica comentou que tem atendido cada vez mais pacientes de outros países, entre brasileiros, norte-americanos e ingleses, que se mudam para Portugal após a aposentadoria. Agendam consulta por iniciativa própria, uma vez que já o faziam em sua terra natal, buscando orientações sobre o bem-viver. 

Naquela tarde quente de sábado, refrescados pela sombra das árvores, a literatura arejou o tempo nos encorajando a sentir a vida para além da contagem de anos. 

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
Para além da contagem de anos
19 dias de livros, debates, leitura silenciosa e cinema ao ar livre. Conheça a programação da Feira do Livro de Lisboa
Para além da contagem de anos
Crônica. Afeto, livros e sorrisos
Diário de Notícias
www.dn.pt