Encontrar família e amigos, mesmo que por poucos dias, nos ancora com quem somos em essência. Recurso valioso, sobretudo, para quem é imigrante e está longe daqueles que conhecem nossa história com mais detalhes. Uma dose de família é uma espécie de energético para a caminhada em outro país.Pode ser que a distância física até estreite os laços. É o clichê que já conhecemos - valoriza-se algo a partir da falta. É natural que haja alguns distanciamentos. Mas há também relatos de imigrantes que dizem estarem muito mais próximos de parentes depois que se mudaram. Falam-se com mais frequência, compartilham a vida nas pequenas coisas, com a espontaneidade de quem está pela vizinhança.É interessante nos percebermos pelos olhos de parentes e amigos. Se, por um lado, estamos cercados de desconhecidos no novo país, o que repercute em falta de parâmetros, por outro lado, receber palavras gentis e de encorajamento nos situa em termos de tempo e perspectiva. Afinal, não somos os inexperientes e sem conhecimentos que determinadas situações nos levam a crer.De vez em quando, faz muito bem à saúde mental enxergar a nós mesmos pela lente de um familiar, de alguém que deseja o nosso melhor.E quando eles vêm nos visitar, corremos para mostrar as belezas da nova casa e aproveitar o máximo de horas juntos. A gente quer apresentar o que aqui tem de bom, quer que vejam as belezas que descobrimos e valorizem a cidade e a cultura conforme temos vivenciado. “Aproveitem!”, “Já provaram a ginjinha no copo de chocolate?, “O que acharam do passeio?”, perguntamos com alta expectativa.Nem sempre surge entusiasmo para monumentos e museus. Há os que apreciam mais a paisagem; outros, a culinária, e está tudo bem. Existem os que ainda se admiram com as diferenças na linguagem, enquanto alguns ficam espantados com a quantidade de ladeiras e passos diários.Na última semana, estive com minha tia paterna, que não via há dois anos, desde o falecimento do meu pai. Abraçá-la foi um consolo neste processo de luto que parece infindável. Percorremos Lisboa, Óbidos, Batalha e Nazaré. Foi uma brecha na agenda para me lembrar do que é essencial: as pessoas com quem partilhamos a vida.Em determinados momentos, eu a observava calada, lembrando de tantos trejeitos semelhantes ao meu pai, aliás à família, porque temos comportamentos bem parecidos no humor, na forma de andar e no trato com a vida.Essa minha tia é o desprendimento em pessoa. Reage com leveza e perspicácia ante as mais variadas e difíceis situações. Em Évora, estava perdida e se localizou por um colchão abandonado que vira na rua. Na imigração, arrancou sorrisos até do policial ao não saber de cor o roteiro em Portugal. Por sorte, vinha em grupo.Foi bom beber dessa fonte por alguns dias. Jogo de cintura, espontaneidade e bom humor salvam a pele.Nessa intensa convivência, a gente redescobre parentes e a si mesmo. E claro que nos fazem perguntas existenciais para as quais não estamos preparados. “É isso mesmo que você quer? Está sendo muito melhor para você aqui?”. A resposta, em geral, é imprecisa e cheia de interjeições. “Eita! Tô seguindo os caminhos que se abrem, mas tudo pode mudar. Vamos ver como termina o ano.”.O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Crônica. O corpo que migra.A magia entre nós