No Brasil, a diplomacia portuguesa é feminina

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Há decisões institucionais que revelam mais do que organização administrativa. Revelam visão de país. Num momento particularmente estratégico da relação entre Portugal e o Brasil — marcado pela reorganização das cadeias económicas globais e pelo avanço do acordo entre a União Europeia e o Mercosul — Portugal escolheu confiar a condução de uma das suas missões diplomáticas mais importantes a uma liderança feminina.

Na Embaixada de Portugal no Brasil, a embaixadora Isabel Brilhante Pedrosa dirige uma missão diplomática particularmente relevante para a estratégia internacional portuguesa. Ao seu lado, a equipa diplomática e técnica de alto nível da embaixada é composta por oito responsáveis de topo — conselheiros, delegados e chefias de missão — entre os quais seis são mulheres, incluindo a adida militar, e apenas dois são homens. Esta composição não é um detalhe estatístico: é um sinal institucional de confiança no mérito e na competência feminina numa das representações externas mais importantes do Estado português.

Essa escolha ganha ainda mais significado no contexto da nova arquitetura económica que começa a desenhar-se entre a Europa e a América do Sul. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul tem potencial para transformar profundamente as relações comerciais, as cadeias de produção e os fluxos de investimento entre os dois blocos. Portugal ocupa nesse cenário uma posição singular: é simultaneamente porta de entrada europeia para empresas brasileiras e ponte cultural entre continentes que partilham uma mesma língua.

E é precisamente aqui que entra o terceiro elemento desta equação estratégica: o português como língua global. Com mais de 260 milhões de falantes distribuídos por vários continentes, o português tornou-se uma das grandes línguas internacionais do século XXI. Instituições como o Instituto Camões – Instituto da Cooperação e da Língua desempenham um papel central nessa estratégia cultural, e também nesse domínio a representação em funções no Brasil é assegurada por uma mulher, reforçando a presença feminina na projeção internacional da língua portuguesa.

Ao confiar maioritariamente às mulheres a representação de Portugal numa missão tão estratégica, o país envia uma mensagem clara ao mundo. Demonstra confiança nas suas instituições, confiança na inteligência feminina e confiança numa visão de diplomacia que combina política, economia e cultura.

Num tempo em que muitos países ainda discutem a igualdade de oportunidades, Portugal prefere demonstrar como ela se pratica. E fá-lo exatamente onde a história, a língua e o futuro se encontram: na relação com o Brasil.

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