Entre pressão e estratégia: América Latina diante a “Doutrina Donroe”

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Estamos em meio a uma mudança de época. Não é apenas mais uma crise econômica ou de geopolítica. O mundo atravessa uma transformação estrutural profunda, que atinge simultaneamente as dimensões política, diplomática, comercial, produtiva e tecnológica. Cadeias globais de valor estão sendo reorganizadas sob critérios de segurança estratégica, alianças são reavaliadas, a geopolítica retorna ao centro das decisões econômicas e a disputa por liderança tecnológica redefine estratégias nacionais. 

O primeiro quarto do século XXI foi decisivo neste processo. A ascensão acelerada da China alterou fluxos comerciais, padrões produtivos e hierarquias tecnológicas. Sua insaciável e crescente demanda por recursos naturais reconfigurou a especialização de economias emergentes. Sua competitividade industrial ampliou presença em setores estratégicos e seu avanço nas cadeias de valor a levou à fronteira tecnológica em telecomunicações, energia limpa, baterias e inteligência artificial. A hegemonia econômica e tecnológica dos Estados Unidos, consolidada ao longo do século XX, passou a ser crescentemente contestada.

É nesse ambiente que deve ser compreendida a chamada Doutrina Donroe, associada ao novo mandato do presidente Trump. Diferentemente da antiga Doutrina Monroe ou da política do Big Stick, formuladas em contexto de expansão inequívoca do poder norte-americano, a nova Doutrina emerge em cenário oposto, em que se contesta aquela hegemonia. Trata-se da reafirmação da primazia dos Estados Unidos por meio de tarifas, sanções financeiras, restrições tecnológicas, pressões diplomáticas e, inclusive, ações militares – a mais recente, na Venezuela. Ou seja, é uma política de contenção e defesa de espaço estratégico. Não se aplica apenas às regiões mais vizinhas, e sim tem sido aplicada a todo resto do mundo.

Mais que nunca norte-americanos vêem a América Latina como seu quintal. Mas, o quadro é complexo e heterogêneo. De um lado, o México possui integração profunda às cadeias produtivas norte-americanas. De outro, Brasil, Chile e Peru, dentre outros, ampliaram significativamente a vinculação comercial à China, sobretudo pelas exportações de commodities minerais, energéticas e agrícolas. É uma forte dicotomia: se muitos mantêm forte dependência financeira dos EUA, outras aprofundaram exposição ao financiamento e os investimentos chineses, sobretudo em infraestrutura (muitas vezes por interpostos países, com os ibéricos). Essa diversidade implica diferentes graus de vulnerabilidade e margem de manobra para cada nação. 

Os riscos são multidimensionais. Em ambiente de rivalidade sistêmica, a região pode tornar-se terreno de disputa indireta entre grandes potências. A pressão por alinhamentos geopolíticos reduz a autonomia decisória e eleva o custo de escolhas soberanas. A concentração das exportações em bens primários destinados à China reforça uma inserção de baixo conteúdo tecnológico e reduzida agregação de valor, perpetuando vulnerabilidades associadas à dependência externa e à volatilidade das commodities.

No plano tecnológico, a elevada dependência das plataformas digitais e das infraestruturas norte-americanas tende a dificultar a capacidade regulatória em temas como dados, concorrência, tributação e segurança cibernética. Essa assimetria tem implicações políticas e diplomáticas, ao ampliar a influência externa sobre fluxos de informação, opinião pública e até processos eleitorais.

Ao mesmo tempo, a transformação global abre oportunidades estratégicas. A reorganização das cadeias produtivas, impulsionada por tensões geopolíticas, cria espaço para diversificação de parcerias e atração de investimentos. O acordo entre Mercosul e União Europeia insere-se nesse movimento de realinhamento diplomático, no qual países buscam reduzir dependências concentradas. Além disso, a América Latina detém ativos centrais para a transição energética e a digitalização. A região concentra cerca de 60% das reservas globais de lítio, 40% das de cobre e possui reservas relevantes de terras raras no Brasil. Contudo, não basta ampliar a extração. É preciso ir além do papel de exportador de minerais críticos e transformar vantagens geológicas em ganhos de produtividade sistêmica, por meio de encadeamentos industriais, processamento local, inovação tecnológica e qualificação de capital humano.

A história demonstra que momentos de reconfiguração geopolítica podem ser convertidos em alavancas de desenvolvimento. Na década de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, o Brasil soube negociar apoio dos Estados Unidos para a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), marco da indústria de base. O salto não foi apenas na exportação de minério, mas na capacidade produtiva nacional.

O desafio atual é semelhante, ainda que muito mais complexo. Não há um eixo nazista/fascista para se opor de forma consensual. Em um mundo de rivalidade estrutural, a questão central não é escolher entre Washington ou Pequim. A Doutrina Donroe se insere nessa reconfiguração sistêmica do poder global. Para a América Latina, a ameaça é a marginalização ou a captura por agendas externas. O desafio é transformar recursos naturais e posição estratégica em capacidade produtiva e tecnológica. É construir autonomia elevando a produtividade sistêmica em meio à disputa. A oportunidade está em usar a competição entre potências como instrumento de barganha e diversificação. Crise é oportunidade. 

*Colaborou neste texto Murilo Ferreira Viana, economista, doutorando em Economia pela Unicamp e consultor econômico. 

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