Durante décadas, Portugal e o Brasil mantiveram uma relação marcada por laços tanto históricos, quanto culturais. Hoje, porém, essa afinidade evolui para algo muito mais relevante: uma parceria económica e científica capaz de transformar a educação, a saúde e a tecnologia em motores de crescimento e inovação global. O Atlântico deixa assim de ser barreira para se tornar uma ponte de conhecimento) E a afinidade cultural transforma-se agora numa sinergia estratégica. Num mundo onde a inovação depende de ecossistemas colaborativos, a relação luso-brasileira ganha novos contornos. Portugal procura cimentar a sua posição como hub europeu de ciência, ensino e tecnologia, enquanto o Brasil se afirma como potência emergente em investigação biomédica e mercado latino de grande escala. Esta complementaridade cria a oportunidade de construir um eixo de inovação e internacionalização de empresas, do ensino superior, da partilha de conhecimento científico e do intercâmbio de profissionais altamente qualificados.De acordo com a Associação Brasileira de Franchising, em 2024, Portugal só tinha os Estados Unidos à frente no ranking de destinos preferenciais de empresas brasileiras para internacionalização. A relação de proximidade que existe entre os dois países cria um efeito virtuoso através da circulação contínua de saberes, em que cada contexto educativo contribui para enriquecer o outro com abordagens e diversas perspetivas. Este fluxo de competências reforça a modernização de práticas, a adoção de tecnologias emergentes e reforça a rede de talento luso-brasileiro. Desta forma, é urgente vermos a internacionalização como uma estratégia de crescimento partilhado. O primeiro passo para a internacionalização é um estudo de mercado bem executado, base indispensável para o sucesso. Adicionalmente, a visão comercial é chave para alcançar esse objetivo. Em 2023, os dois países, através da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações do Brasil) e da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), assinaram um acordo de cooperação económica nos mercados dos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), promovendo a internacionalização e a dinamização dos fluxos bilaterais de comércio e investimento. Ao alinhar prioridades, Portugal e o Brasil têm a capacidade para criar um verdadeiro corredor de internacionalização, investigação e inovação num único ecossistema. No setor da saúde, este modelo redefine a forma como se aprende e pratica, fortalecendo competências e ampliando exponencialmente horizontes profissionais.A ponte transatlântica começa nas instituições que já não formam apenas alunos, mas também inovadores. Com o cruzamento de currículos e cursos especializados, Portugal e o Brasil podem (e devem), mais do que exportar, construir conhecimento. A procura de profissionais portugueses por formação avançada em instituições brasileiras, impulsionada pela proximidade linguística, pela reputação científica e pela oferta formativa especializada, mostra como esta ponte já está em bom funcionamento. De acordo com os dados mais recentes, disponibilizados pela Ordem dos Médicos Dentistas, Portugal tem um rácio de um médico dentista por 814 habitantes. Este dado coloca Portugal numa posição bastante favorável, uma vez que a Organização Mundial de Saúde recomenda um médico dentista por 1500-2000 habitantes. Assim, esta internacionalização ganha ainda mais força, pela oportunidade de reforçar a formação de profissionais altamente qualificados, promover a circulação de conhecimento científico e tecnológico, criando um ecossistema colaborativo que beneficia simultaneamente Portugal e o Brasil.A educação, a tecnologia e a saúde falam agora uma nova língua comum: a da inovação. Portugal e o Brasil estão, hoje, numa posição única para dar forma a este eixo global, como protagonistas da internacionalização e complementaridade entre os dois mercados. A ponte transatlântica já existe. O próximo passo é ampliá-la para que seja o motor de transformação das próximas décadas..O molho brasileiro e, finalmente, a latinidade como desejo de consumo.Opinião. UE-Mercosul: um novo eldorado para as indústrias da cultura e economia criativa