Cada família tem sua cota de dores, concessões e silêncios para existir. Seguindo a genealogia, nós, mulheres, aparecemos com frequência com um alvo nas costas, variando em situações de mais ou menos vulnerabilidade, a depender da dose de liberdade conquistada em cada geração. Este 8 de março, por exemplo, evidencia retrocessos e violação aos direitos que deveriam estar garantidos. Em 2026, o Dia Internacional da Mulher vem marcado por manifestações nas ruas, sobretudo do Brasil, pela luta contra a violência que só aumenta, contra um sistema que nos engole, mastiga e joga fora; contra mentalidades que não sabem lidar com as próprias frustrações e debilidades e fazem do outro o depósito de seu ódio. Nos últimos meses, parece que estamos submersos nas águas da exaustão, com a cabeça emergindo em tempos para sobreviver com o ar mínimo. É extrema violência, tanto feminicídio que o desânimo aparece logo pela manhã, ao acessarmos notícias e redes sociais. E ainda soma-se mais uma guerra, provocada por uma criatura com o devaneio de ser o dono do mundo, arrastando consigo caos e destruição.Mesmo as cabeças mais resilientes têm sido invadidas por pensamentos de que o mundo parece não ter mais jeito, de que a humanidade deu errado, de que uma hora o planeta vai fazer um reset, de que não há nenhum lugar seguro para uma mulher. São gritos a dizer de várias formas: não aguentamos mais, não é mais possível viver assim!Pode ser em casa, na rua, no convento, nos transportes, no trabalho, no colégio, no avião, na festa, no hotel, no hospital, na sala de cirurgia.É o professor, motorista, desembargador, técnico, político, treinador, síndico, médico, bombeiro, policial. O pai, primo, padrasto, irmão, namorado, padrinho, ex-namorado, amigo da família, tio, marido. Insegurança e medo integram a rotina feminina. Quase toda mulher (suspeito que todas) já passou por alguma violência ao longo da vida. As estatísticas, apesar das subnotificações, apontam um cenário assustador.Entre 2004 e 2025, 709 mulheres foram assassinadas em Portugal. Em média, 32 mulheres por ano. Os dados são do Observatório de Mulheres Assassinadas, que é uma iniciativa de monitorização não oficial de femicídios no país, criada pela UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta. O Brasil registrou um estupro a cada seis minutos em 2025, mais de 220 vítimas por dia, segundo dados do Ministério da Justiça. De acordo com a publicação “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, em 2025, foram 1568 vítimas de feminicídio, mais 4,7% do que em 2024. Desde a tipificação da lei do feminicídio, em março de 2015, mais de 13.700 mulheres já foram assassinadas por sua condição de ser mulher.Em 9 de março de 2026, a conhecida Lei Maria da Penha completa 20 anos, o que representa um dos marcos mais relevantes da política de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. A violência doméstica e familiar, considerada antes apenas de âmbito privado, foi categorizada como violação de Direitos Humanos e questão de política pública.Enquanto ainda se desenha um mundo em que uma mulher possa voltar para casa ilesa, e nela permanecer em segurança, tendo em vista que a maior parte das agressões é realizada por companheiros ou ex-companheiros, algumas medidas vão forjando sensação de segurança.Em Roma e Veneza, foram distribuídos kits gratuitos a mulheres para detectar drogas nas bebidas. Uma jovem portuguesa criou uma granada pacífica que emite alarme sonoro e envia alertas de localização, em momentos de perigo. Amigas partilham a localização a cada saída de casa e servem de abrigo quando uma delas quer terminar uma relação abusiva. Algumas mulheres ingressam em aulas de defesa pessoal e portam spray de pimenta; outras convivem com o “botão do pânico”, a ser acionado quando se aproxima o agressor contra o qual há medida protetiva. A maioria reza: “Que nada de ruim me aconteça. Amém.” Enquanto isso, só queremos o direito de existir sem medo. Só queremos estar vivas e livres, para sermos quem quisermos.