Na última sexta-feira, estive com mais de vinte mulheres brasileiras visitando a cidade de Fátima. O grupo formado por bordadeiras de vários estados do Brasil veio a Portugal e à França em um roteiro chamado “A Rota do Bordado”. A programação foi elaborada por uma agência de turismo, juntamente com uma professora de bordado. No caso, minha ex-chefe e sua filha. Um momento para rever pessoas queridas, celebrar a Páscoa e receber o afeto tão desejado pela imigrante do lado de cá.Conheci mulheres com experiência diversas, mas unidas pelo amor ao bordado. Uma delas explicou que as duas avós eram crocheteiras e, por isso, desejava também desenvolver tal habilidade manual. Quando se aposentou, após três décadas como professora de educação infantil, encontrou nas arpilleras chilenas a inspiração. O tipo de bordado aplicado sobre juta surgiu em meio à repressão da ditadura militar no Chile. Como resistência, as mulheres bordavam em oficinas de bairros, prisões e centros de detenção para expressar sentimentos, reivindicações e denúncias.Outra integrante, professora de História e Geografia em escola pública, contou que depois de se aposentar tirou o relógio do pulso e decidiu que, a partir dali, seguiria a vida no próprio ritmo e vontade. Passou a bordar a vida em tecido, viagens e encontros demorados com a literatura. Revelou que já teve a oportunidade de se corresponder com Rubem Alves, enaltecendo o escritor por sua contribuição na área da Educação e pelo uso singular das palavras. Em conversa com o grupo, a professora comentou sobre o bordado como linguagem que atravessa gerações. “Cada país tem suas particularidades, desenhos diferentes, pontos, tipos de linha. É uma riqueza cultural que conta muitas histórias.” Ela comentou ainda como a viagem foi preparada para promover vivências e contato com as tradições. O bordado como entrelaçamento de sabedorias e legados.Uma das viajantes, como especialista no Bordado de Castelo Branco, promoveu oficina para as mulheres. Entre os bordados portugueses, o de Castelo Branco utiliza linhas de seda e uma imagética específica com pássaros, árvore da vida, cravos, lírios, romãs e corações. Os temas já influenciaram a arquitetura, moda, selos, mobiliário e até a confecção de moedas. E continua a costurar histórias entre portuguesas e brasileiras. Enquanto a vida vai sendo bordada, ponto a ponto, a viagem a Fátima fortaleceu o espírito de gratidão, despertou memórias e trouxe um novo olhar para quem já conhecia o local. Alguns queimaram velas, outros realizaram penitências de joelhos e nós, do grupo, entregamos cartas para Nossa Senhora, em uma comunicação que transcende fronteiras. Estar nesses locais que congregam espiritualidade, cada uma a sua maneira, nos lembra que a vida é aqui e agora. É necessário ter à vista essa noção de finitude e tamanho para reforçar o pé na realidade. Integramos o todo e também somos apenas uma parte. Em Aljustrel, aldeia onde viviam os três pastorinhos, conhecemos a sobrinha de Jacinta e Francisco, também nomeada Jacinta em homenagem à tia. A senhora de 83 anos posou para fotos, ganhou abraços e elogios das bordadeiras. Respondeu ao grupo de maneira serena em contraste com a euforia brasileira. Disse que cada pessoa tem sua história e que os terços perfumados vendidos ali eram autênticos. “A gente morre e o perfume fica.”. O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Conversas sobre rodas: as histórias de motoristas brasileiras.O molho brasileiro e, finalmente, a latinidade como desejo de consumo