Conversas sobre rodas: as histórias de motoristas brasileiras

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É surpreendente o quanto aprendemos quando decidimos ouvir e nos interessamos pelo que o outro tem a partilhar. Sigo conhecendo mulheres e suas histórias de vida durante os percursos em carros de aplicativo. Cada viagem é uma oportunidade de pensar o mundo sob uma perspectiva diferente, compreendendo a jornada de alguém que também correu muito para estar ali, naquela direção. 

No último mês, conheci algumas motoristas brasileiras. Rimos, dividimos lembranças e desejos de futuro. Diferentes sotaques que carregam memórias, paisagens e sentimentos; despertam o imaginário e a curiosidade. “Cê tá boa?”, saudou a mineira ao colocar minha mala na traseira do veículo.

Prontamente, reconheci aquele falar acolhedor que parece convidar para um café com pão de queijo quentinho. A recepção gentil já indicava uma prosa animada pelo caminho. Sempre que escuto essa cadência, lembro-me do ano que morei em Contagem (MG) para fazer uma pós-graduação. Foram tempos de esforço, adaptação e boas amizades.

Vivendo há quinze anos em Portugal, a motorista daquela tarde era uma mulher que abriu os próprios caminhos. Emigrou sozinha, trabalhou como cuidadora de idosos por dez anos e há quatro conduz passageiros aos destinos. Apesar do sorriso presente, ela revelou que tem perdido o entusiasmo devido à falta de respeito e descaso vivenciado nas terras lusitanas. “Há sempre alguém te olhando torto. O ódio está mais explícito. A mídia favoreceu que se exponha mais os sentimentos - para o bem ou para o mal.”, refletiu.

Outro dia, estava com horário apertado para chegar em uma formação quando fui recebida por uma motorista carioca que nasceu em Aveiro. Aos 65 anos, ela está aposentada de uma longa carreira na advocacia, mas continua na ativa. É professora de Direito Constitucional e Administrativo, formou-se também em Antropologia e passou a estudar o tema da imigração. 

Trocamos impressões sobre a conhecida lei do atendente, falamos sobre política e como o fator religioso pode mobilizar as emoções. Com seu saber antropológico, alertou: “Diante da Sociologia, a gente estuda o EU diante do OUTRO e, quando a gente coloca um rosto nesse OUTRO, fica fácil manipular”. De certa maneira, a carioca aveirense acaba por fazer um experimento social ao lidar com os clientes. Enquanto interage, vai descobrindo as ideologias de cada passageiro e os comportamentos deste no mundo. 

Em uma ida para uma reunião, conheci uma pernambucana que vive há nove anos em Lisboa. No Brasil, atuava na área comercial, em Portugal trabalha como motorista em carro de aplicativo após retomar a carreira pós-maternidade. Ela comentou sobre a diferença nas comissões oferecidas nos dois mercados - “Seguro não dá dinheiro aqui.” - e sobre o projeto em voltar para o segmento imobiliário. Dirige a vida com a experiência diária em encontrar melhores rotas.  

“Um senhor orou na minha cabeça e Deus falou que eu iria mudar de país.”, contou-me outra motorista, natural de Goiânia, cidade conhecida como a terra do pequi. Uma história que poderia ser de realismo fantástico, mas que se materializou há vinte e seis anos, tempo que reside em Lisboa. Ela já tentou trazer a filha e a mãe para viverem juntas, mas ambas não se adaptaram ao clima frio. “Não me vejo lá (no Brasil), amo aqui.”, explicou relatando a situação crítica dos três irmãos que vivem em Leiria, após a depressão Kristen: “Um caos. Sabe quando tem uma guerra e acaba? Tudo destruído.” 

Neste sábado, conheci mais uma brasileira, do Paraná, que mora há vinte e quatro anos em Loures. Emigrou para ficar apenas dois anos, tentou voltar após dez, mas não conseguiu. “Achava estranho, como que a gente não se adapta ao próprio país?”, lembrou de quando retornou por pouco tempo ao Brasil. Vivendo em definitivo em Portugal, ano passado, levou o filho de doze anos para conviver um pouco com as raízes. “Ele tem orgulho de ser brasileiro.” 

Nos despedimos e fiquei a pensar sobre como seria voltar de vez para o Brasil. Mas, por enquanto, a única mudança que está planejada é para uma nova morada. A partir da próxima semana, inauguro um período de adaptação dentro da mesma terra.

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil
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