A vizinhança, um pequeno país

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Na iminência de trocar de morada, percebi quantos laços foram criados na freguesia em que vivi nos últimos cinco anos. A gente vai adotando costumes, fidelizando-se a serviços e, quando repara, já está inserido no jeito de ser daquela vizinhança. Mudar de casa é uma espécie de migração que nos impele a inventar hábitos, alterar documentos, desenhar outras rotas e, mais uma vez, adaptar-se ao novo.

Na última semana para o outro endereço, transitei pelas ruas no entorno de casa despedindo-me simbolicamente dos percursos ao supermercado, à farmácia, à alameda tão bucólica por onde caminhei nas primaveras e outonos. Uma espécie de agradecimento pela temporada de boas memórias construídas naquela região. Um misto de nostalgia e de frio na barriga que uma mudança sempre provoca. 

Entre as tarefas finais, levei umas botas para consertar no sapateiro que também atende como chaveiro e ainda faz impressões. “Como vai a menina?”, cumprimentou-me o senhor de 70 e poucos anos quando solicitei o último serviço. Já me contou que trabalha no ofício desde muito jovem, aprendeu com o pai, que já seguia a profissão de família. Com a esposa, abriram loja na Suíça e, quase três décadas depois, voltaram a Lisboa. O filho, por sua vez, interrompeu a tradição e escolheu ser barbeiro, mas alugou a loja ao lado do pai para manter o núcleo unido. 

Aproveitei também para comprar os últimos remédios e me despedir dos farmacêuticos que sempre foram muito atenciosos. Sanaram dúvidas, explicaram os princípios ativos dos medicamentos e me deram conselhos para a vida. Uma técnica, em especial, dispensava quase meia hora a me informar sobre como ser uma pessoa mais saudável. Com eles, atravessei pandemia, dores crônicas e resfriados. Agora, terei que buscar orientação com outra equipe.

Passei ainda na costureira para recolher duas blusas que deixei para ajustar. A senhora sempre com muito serviço e cabides lotados de roupas para consertar. Enquanto se ocupava dos remendos alheios, o rapaz monossilábico engomava os ternos de outros clientes. Quando se aproximava o mês de junho, ela logo avisava: “Isto aqui está impossível. Pode ficar para a próxima semana?” Os vizinhos devem confiar-lhe os trajes que colorem as avenidas e garantem os bailaricos da época. A missão agora é arranjar uma substituta à altura. 

Vou sentir falta da loja administrada por uma família chinesa, onde encontrava de tudo até oito horas da noite, o que já me salvou de alguns imprevistos. Sempre simpáticos, me ajudavam a encontrar os parafusos adequados, peças para banheiro, utensílios de cozinha, material de escritório e a repor os guarda-chuvas perdidos ou partidos pelo vento. Outro dia, observei a filha adolescente a comandar o caixa, como a treinar as tarefas de cada setor do negócio parental.  

Sobretudo, vou sentir falta do metro a uma quadra de casa. Algo que faz muita diferença para quem se locomove de transportes públicos. Se por um lado percorri mais a cidade pelo subterrâneo, por outro, estive sempre conectada em minutos a qualquer lado de Lisboa. Isso, sem passar frio ou me molhar na chuva. No atual endereço, tenho corrido atrás de autocarro que chega mais cedo ou recalculado o caminho quando atraso um minuto e perco a viagem. Aos poucos, estou ensinando ao corpo como se deslocar de várias maneiras.

Vivendo há quase um mês no recente apartamento, estou ainda como aquela pessoa que acaba de pousar em território distinto - tateando como habitante caloura as possíveis conexões com a cultura local. Tenho encontrado diferentes fornecedores e desenvolvido olhares sobre a vizinhança. Já mapeei supermercado, farmácia, loja chinesa, café, padaria, e até uma venda de frango assado. E guardado na memória números de autocarros.

No quarto, não escuto mais o canto dos passarinhos e sim o arrulho dos pombos. Palavra nova que aprendi e nomeia o som gutural destas aves quando buscam demarcar território ou atrair um parceiro. Testemunho a reunião diária das criaturas.

A janela da sala emoldura o verde do Parque Florestal de Monsanto, margeado pela linha do comboio. Enquanto aprecio um café e trabalho ao computador, ouço o trem a cada tantos minutos, os carros velozes em direção ao destino, aviões muito ao longe e o elevador do prédio transportando os vizinhos. O ritmo da cidade parece mais movimentado por aqui, tal como a vida há de ser pelos próximos tempos.

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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