Há poucos dias, uma amiga portuguesa me convidou para visitarmos a exposição “Maputo Diary”. Com fotos e textos, uma cineasta dinamarquesa registrou por mais de duas décadas a cidade onde cresceu - a capital moçambicana. Retratou lugares, cotidiano, pessoas e seu relacionamento com as “Manas”, comunidade transgênero e queer da região. Foi um sábado emotivo, entre arte e reflexões sobre coragem, preconceito e resistência.Sem longas combinações, calhou de tudo confluir para passarmos a tarde juntas em estado de comunhão. Quando essas brechas acontecem, são aqueles momentos de valorizarmos risos, presença e partilhas. Algo ainda muito precioso, embora a gente esqueça com frequência.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!Conheci essa amiga portuguesa pelo acaso de escolhermos o mesmo curso sobre histórias sonoras não-ficcionais. Lembro como hoje, a professora comentando que a tal aluna era uma escritora conhecida, pronunciou o primeiro nome dela, ao que afastei a cabeça do computador para observá-la e completei o sobrenome em tom de pergunta. Após a confirmação de ambas, confessei animada: “Eu já sigo você no LinkedIn”. Entre vergonha e surpresa, ali começou mais uma amizade da vida adulta.Além da nossa paixão pela escrita, temos semeado um espaço genuíno de troca e empatia nesse pouco mais de um ano que nos conhecemos. Vamos lembrando uma da outra pelas referências que carregamos. Ela adora a cor amarela, nuvens, montar puzzles e construir Legos. Escreve com o coração e me explicou o sentido de “lamechas”.Lembrar dos amigos por suas peculiaridades é uma prova de amor. O outro está refletido de muitas maneiras em histórias, símbolos. Não posso, por exemplo, ver pera que recordo ser a fruta preferida de uma amiga. Quando encontro passarinhos, envio logo uma foto para saber se o amigo doutor identifica o espécime. Encaminho vídeos com receitas culinárias ao meu irmão que ama cozinhar. Notícias de aviação e viagens são mensagens constantes trocadas com minha parceira de turismo.Tenho curiosidade especial em perceber a vida pelos sentidos de outra pessoa e provar da novidade que esse alguém sugere. Na tarde em que visitamos a exposição, minha amiga portuguesa me brindou com sabores, sons e lugares. Assim, conheci uma frutaria com mais de cinco décadas de funcionamento, experimentei as delícias de um bolo fresquinho de morango, suco de manga e pastel de massa tenra. Acabei conduzida, sem aviso, a minha casa de infância e à cantina do Colégio Santa Isabel.É o que eu chamo de “efeito ratatouille”, qual no filme homônimo quando o paladar (olfato ou audição) nos remete a uma memória afetiva. É como se fôssemos teletransportados para aquelas horas mágicas. Manga e goiaba são minhas frutas da juventude, que associo imediatamente a tempo feliz com amigos, à presença materna e a momentos em que caminhar sobre as folhas secas caídas no quintal era um universo seguro e de calmaria.No mesmo dia, a amiga ainda me apresentou a um parque florestal próximo de onde moro, ponto de vários piqueniques em família. Encheu o ar com um punhado de cantores que eu desconhecia, inclusive um grupo brasileiro que parece o nome da fruta - Graveola.É fascinante continuar percorrendo o novo, não considerar-se de todo formatado, estar disponível para outros moldes. Como diz a música “Talismã” (da banda Graveola), sempre que possível, “eu vou pedalar no pôr do sol, descobrir a nova ilha, inventar a maravilha de amanhã”. E quem sabe, ao escalar tal liberdade, “receber da novidade o talismã”..Uma dose de família.A magia entre nós