A guerra do Brasil não é apenas tarifária e diplomática: é eleitoral

A taxação é, sem dúvida, uma tentativa de Trump manchar a imagem de Lula no Brasil, e, claro, mundo afora.
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O Brasil está em guerra. Não uma guerra com armas visíveis, mas em uma batalha diplomática e tarifária com alguns dos países mais ricos do mundo, cujos danos afetam diretamente a economia brasileira. Nas trincheiras da diplomacia, o mais recente ataque partiu dos Estados Unidos, em uma investida já prevista contra os produtos brasileiros.

Donald Trump, que gosta de mexer as peças na arena mundial em torno dos seus interesses, por vezes pessoais, impôs um tarifaço de 25% a diversos produtos que saem do Brasil, em uma magnitude nunca vista entre os produtores brasileiros. Os fatores indicados pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos para a aplicação das medidas variam entre os aspectos econômico, jurídico e até ambiental. O prejuízo ao Brasil pode chegar a quase 10 bilhões de dólares.

Na prática, tudo é impactado pelo humor do presidente dos Estados Unidos. E para quem ele tira para amigo, ou inimigo. No caso do Brasil, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não entra no roll de amigos do norte-americao. E para completar, o amigo de Trump e ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro segue preso em pleno ano eleitoral. Trump, que não costuma respeitar a autonomia dos países, resolveu virar a artilharia para o Brasil. A guerra do Brasil aqui é para além de tarifária e diplomática: é eleitoral.

A nova taxação aos diversos produtos brasileiros ocorreu poucas horas após a divulgação da mais recente pesquisa eleitoral, que mostra o presidente Lula (PT) oito pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) no 2º turno da eleição presidencial, que ocorre em outubro. E é fato que Trump não vai desistir de ver seu aliado da família Bolsonaro virar essas expectativas, nem que para isso tenha de se meter onde não é chamado.

Na justificativa do ataque tarifário, Trump escolheu sete alvos específicos que ele nunca gostou: PIX; corrupção no Brasil; ações do STF contra as big techs; tratamento injusto na política de tarifas brasileira; proteção inadequada à propriedade intelectual; tarifas sobre o etanol e o desmatamento. Vou centrar em um ponto específico aqui: o PIX.

Sobre o PIX, o governo norte-americano afirmou que o banco central brasileiro "desfavoreceu provedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos EUA, ao mesmo tempo em que favorece seu sistema nacional". É claro que desfavoreceu os norte-americanos porque o PIX resulta em mais autonomia e mais ganhos ao Brasil. O PIX foge dos negócios das gigantes americanas de pagamentos, como Visa, Mastercard, American Express e PayPal.

Em média, pagar com PIX representa uma economia de 1,98% a 2,5% sobre o valor da compra devido à diferença de impostos cobrados quando são usadas as maquininhas. Trump, claro, quer que esse dinheiro que o brasileiro deixa no Brasil com o PIX volte para os cofres norte-americanos. Na prática, as tarifas que os Estados Unidos ameaçam colocar é uma represália direta pela criação e pelo uso do PIX.

Mas não é só uma retaliação pelo PIX. E sabe onde a eleição chega. Quando o governo dos Estados Unidos coloca como justificativa para a taxação as medidas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra as big techs, que estão basicamente centradas nos Estados Unidos.

As plataformas norte-americanas querem agir no Brasil como se estivessem em uma terra sem lei. e o STF não está disposto a permitir. As restrições foram justificadas pela Justiça brasileira por conta das plataformas terem se recusado a cumprirem leis do país ou ordens de retirada de conteúdo.

O fato é que, se as plataformas digitais agissem ao bel prazer de Trump, elas poderiam interferir de forma considerável no resultado do voto que o eleitor vai depositar na urna em alguns dias. Sem a interferência digital, o voto no Brasil fica mais difícil de ser controlado. E Trump quer usar todos os recursos que tiver em mãos para ver seus aliados vencedores. Nem o governo Brasileiro nem o STF vão permitir.

A taxação é, sem dúvida, uma tentativa de Trump manchar a imagem de Lula no Brasil, e, claro, mundo afora, uma vez que a decisão norte-americana virou notícia em todo o mundo, e causou um alvoroço na economia, com as bolsas a serem impactadas em todos os continentes. Na batalha das tarifas, todos têm medo de perder. E o Brasil, que já está com um problema gigante na Europa para resolver, agora precisa também solucionar os problemas com os norte-americanos.

Na Europa, o tempo também é curto para evitar os prejuízos com o veto à exportação de carnes de origem animal do Brasil para a União Europeia, que vale a partir de setembro e vai impactar toda a cadeia de produtos de origem animal. A decisão do bloco europeu vai significar um prejuízo anual de cerca de 2 bilhões de dólares aos exportadores brasileiros, segundo números do Ministério da Agricultura.

Juntos, Estados Unidos e Europa podem causar prejuízos de mais de 15 bilhões de dólares à economia brasileira. Em ano de eleição, esse é um prato cheio para as propagandas eleitorais. A guerra diplomática do Brasil agora é, sem dúvida, uma guerra que passa pelos caminhos das urnas.

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