Neste domingo, milhões de brasileiros, estejam no Brasil ou em outros países, como Portugal, vão às urnas para começar a escolher quem vai ocupar o cargo mais importante do país: o de presidente da República. Começar, porque diante de tamanha polarização, a eleição não vai ser definida em primeiro turno. E é neste cenário que o voto ganha também outra dimensão: não basta apenas escolher em quem votar. A polarização nos obriga a enxergar o voto útil como superior à nossa própria escolha.O voto útil é uma estratégia política, em que o eleitor deixa de priorizar sua candidatura preferida para tentar influenciar o resultado da eleição. Resolver tudo da forma mais breve possível.A primeira vez que presenciei de perto essa estratégia foi em 2006, nas eleições para o governo do meu estado, o Rio Grande do Sul. Na época, o então governador, Germano Rigotto, disputava a reeleição. O PT tinha como candidato Olívio Dutra e a outsider do momento era Yeda Crusius.A polarização era grande. Parte dos eleitores não queria rever o PT no comando, mas também não queria reeleger Rigotto. Yeda surfou na onda, e numa época em que os telefones fixos ainda enfeitavam as bancadas dos lares, a noite de sábado foi uma loucura total. Bastava colocar o aparelho no gancho para uma nova ligação chegar com uma mensagem que, não lembro bem os termos, colocava Yeda como a novidade única capaz de acabar com a polarização.Quando as urnas foram abertas no domingo, a surpresa foi geral. Rigotto, o então governador, não chegou no segundo turno, que foi disputado por Yeda e Dutra. A aversão pelo PT no Estado, na época, venceu, e Yeda virou a primeira governadora da história local. Eu, que na época cobri a eleição pelo jornal Zero Hora, lembro do desespero entre os apoiadores de Rigotto. Foi ali que o gaúcho aprendeu, na prática, o que é voto útil. E arrisco a dizer que nunca mais deixou de aplicar.Neste ano, mais uma vez, o brasileiro se depara com isso em larga escala. Não apenas para a Presidência da República, mas para a escolha dos governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais. Não basta votar em uma pessoa. Precisamos votar na quem tem mais chance de derrotar o projeto político com o qual não nos identificamos. Esse é o voto do brasileiro. O voto contra quem você não quer, não o voto em quem você quer.O brasileiro não olha mais proposta de governo. Muito menos propaganda política, que a despeito dos imensos custos aos cofres públicos, seguem ocupando espaços nobres nos veículos de comunicação, cujos aparelhos estão desligados ou passando uma série no streaming. Uma pesquisa BTG/Nexus apontou que 54% dos brasileiros dizem não acompanhar as campanhas na televisão e no rádio.A propaganda está na rede social. Na discussão da mesa do boteco. Na divergência do almoço de família. Separamos nossos grupos sociais entre quem vota em um, ou vota em outro. Ficou impossível ter uma conversa lúcida com quem tem posições políticas diferentes da que escolhemos. Os flertes se dividem entre quem é de direita ou de esquerda. O Brasil está assim. Onde o brasileiro está, é assim.Na eleição passada, na semana seguinte ao segundo turno, as noites frias que começavam a regressar em Lisboa embalavam dezenas de brasileiros, que se amontoavam no Chiado cantando o hino nacional e pedindo intervenção militar. Confesso que passava quietinha por lá.Sentia tanta vergonha de ver brasileiro, que não mora no Brasil, fazendo manifestação em defesa do absurdo que é a intervenção militar no nosso país que eu queria era que ninguém pensasse que eu era mais uma brasileira apoiando aquela loucura. Os atos seguiram por vários dias, e toda vez que eu ia para casa, passava por ali com um misto de vergonha e tristeza.Nesta eleição, quando todos nós regressamos às urnas, eu não tenho vergonha de ser brasileira. Tenho orgulho do meu voto, mesmo que ele seja mais um voto útil do que de fato o que eu poderia escolher se não estivéssemos diante de mais um triste cenário de polarização. No fundo, o que importa, é que vença a democracia..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Mulheres, as menos influenciáveis em seus votos.Lula vs Flávio. Duelo entre o mito mundial da esquerda e o Bolsonaro moderado nas eleições brasileiras