A coragem de recomeçar

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Estive um pouco sumida. Estava ocupada numa revolução.Mudança de casa, de vida, de trabalho, de mentalidade, de rotina. Basicamente, um novo nascimento. E é impossível não lembrar que a minha última grande revolução foi sair do Brasil.

Mudar é um salto de fé. A gente acredita que está no controle, faz listas, planos, projeções. Mas mudar é justamente descobrir que não controla quase nada. É confiar na vida.

Vejo constantemente o mesmo erro em quem quer emigrar: fazer planos perfeitos e imaginar que Portugal é apenas uma continuação do Brasil. Não é.

Quando se cruza um oceano, o mapa das oportunidades vira de cabeça para baixo. Quem ocupava uma posição de gerência pode acabar atrás de um balcão. Quem servia cafés no Brasil pode estar aqui a vender apartamentos. Vejo isso acontecer todos os dias.

A desilusão costuma visitar quem chega agarrado demais às certezas.

No meu caso, depois de quase vinte anos carregando o rótulo de fotógrafa, por algum motivo senti vontade de viver a vida sem ser fotógrafa. Como se tivesse soltado duas décadas de história como um balão que desaparece no céu.

Recebi mensagens lindas de antigas noivas, de mães que fotografei, de mulheres que confiaram em mim para guardar pedaços das suas vidas. Percebi que deixei um legado. Mas também percebi outra coisa.

Depois de entrar em tantas casas, testemunhar tantas famílias, observar tantas mulheres, comecei a sentir vontade de mudar o ângulo da lente. Quero falar mais sobre mulheres. Sobre as suas escolhas, os seus silêncios, as suas revoluções íntimas.

Visitei muitos lares. Alguns felizes. Outros sustentados por aparências. E foi observando a vida dos outros que comecei a escutar melhor a minha. Talvez tenha sido isso.

Na primeira semana em que anunciei que deixaria de fotografar, tudo pareceu estranho. Andava pelas ruas à noite com uma aflição difícil de explicar. Como se, pela primeira vez em muitos anos, eu não tivesse de manter a roda girando.

Agora vivo um luto silencioso. Estou a reaprender quem sou sem uma profissão a definir-me. Estou a ler a minha vida à minha volta, a procurar novas possibilidades, novos caminhos, novas formas de existir que façam mais sentido.

Porque, às vezes, desistir de uma determinada vida também é uma revolução. E se você está no meio de um recomeço, talvez a sua única tarefa agora não seja saber exatamente para onde vai. 

Nem toda mudança vem acompanhada de certezas. Algumas chegam vestidas de medo, de dúvidas e daquela sensação desconfortável de estar a perder algo que levou anos a construir. Mas nem tudo o que parece perda é fim. Há coisas que precisam ser deixadas para trás para que outras possam nascer.

Recomeçar raramente é elegante. É confuso, contraditório e, muitas vezes, solitário. Mas também é um dos maiores atos de coragem que existem. A vida não nos pede fidelidade ao que fomos. Pede apenas honestidade para reconhecer quando já não cabemos mais numa versão antiga de nós mesmos.

E talvez crescer seja justamente isso: agradecer a pessoa que nos trouxe até aqui e, ainda assim, ter coragem de seguir sem ela. Por isso, se há dor constante no que fazes, se a vida que construíste já não parece a vida que desejas viver, talvez seja hora de uma revolução.

Não porque tudo tenha dado errado. Mas porque cresceste. E algumas portas não se fecham para nos limitar. Fecham-se para nos lembrar que chegou a hora de atravessar outras. A tua próxima versão talvez esteja à tua espera do outro lado da coragem.

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