Caso foi publicado pela mãe nas redes sociais.
Caso foi publicado pela mãe nas redes sociais.Foto: DR

Opinião. O que Portugal não quer ver em Cinfães

"O país está diante de uma escolha: tratar o caso de Cinfães como uma tragédia isolada ou como um aviso coletivo".
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Texto: Tadeu Kaçula*

Há pouco mais de 15 dias, um menino brasileiro negro de nove anos teve dois dedos decepados no portão de uma escola em Cinfães. A família descreve agressões recorrentes, insultos xenófobos e tentativas de fuga. Não foi um acidente. Foi o desfecho de um ambiente em que algumas crianças aprendem cedo demais que certos corpos valem menos. Com a xenofobia em crescimento a partir do influxo imigratório, é preciso pensar em políticas públicas para enfrentá-la.

Desde novembro de 2024, deputados do Livre, PAN, Bloco de Esquerda, PS e PCP vêm alertando para a escalada do ódio e da discriminação racial contra imigrantes. Esses alertas são importantes e revelam consciência, mas ainda não há consenso político. Quando apenas parte do sistema reconhece o problema, combatê-lo vira bandeira partidária e não compromisso democrático.

Há também dificuldade em compreender como a xenofobia opera na prática. Ela não começa com agressão física. Antes do portão, houve piadas. Antes das piadas, desconfiança. Antes da desconfiança, a ideia de que alguns pertencem e outros apenas estão. Aos poucos, uma criança deixa de ser vista como criança e passa a ser vista como estrangeira. Depois, intrusa. Quando a linguagem desumaniza, a prática acompanha. A palavra vira ombro esbarrado. O esbarrão vira perseguição. A perseguição vira sangue.

Identificar o fenômeno é necessário, mas não basta. Se sabemos que a xenofobia funciona como um processo, também precisamos pensar em políticas públicas que promovam convivência, encontro e responsabilidade compartilhada. Em 2026, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, estudarei um caminho possível: as práticas culturais afro-diaspóricas, em especial o samba.

O samba não é apenas música. É um modo de estar com o outro. Ele cria pertencimento sem exigir assimilação, transforma diferença em coordenação e produz comunidade onde poderiam existir fronteiras. Para que exista samba, é preciso ouvir, responder, ajustar, sustentar o ritmo juntos. O samba faz algo que a política institucional ainda não faz de forma suficientemente boa: cria espaço em que ninguém precise desaparecer para que a convivência funcione.

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Se Portugal quer enfrentar a xenofobia, não basta reconhecer sua existência. É preciso construir oportunidades concretas de convivência: políticas culturais, financiamento público, projetos educativos e espaços de encontro onde brasileiros, portugueses e outras comunidades possam existir sem medo.

O país está diante de uma escolha: tratar o caso de Cinfães como uma tragédia isolada ou como um aviso coletivo. Se escolher o segundo caminho, precisará garantir que nenhuma criança tenha de fugir para sobreviver e que nenhuma comunidade precise provar diariamente que merece estar ali.

Porque, no fim, a questão não é apenas o que fizeram com aquele menino. A questão é como se chegou a esse ponto e o que o país está disposto a construir, coletivamente, para que casos assim nunca mais aconteçam.

*Tadeu Kaçula é sociólogo, doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorando na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Em 2026, será pesquisador visitante no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, com bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

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